Braga, sexta-feira

ABC antevê reflexo da pandemia nos clubes e na seleção de andebol

Desporto

08 Fevereiro 2021

Redação

O ABC/UMinho, histórico do andebol português, frisa o "impacto enorme" da covid-19 nas suas camadas jovens e teme que a pandemia tenha reflexos na qualidade das equipas e da própria seleção nacional a médio prazo.

O ABC/UMinho, histórico do andebol português, frisa o "impacto enorme" da covid-19 nas suas camadas jovens e teme que a pandemia tenha reflexos na qualidade das equipas e da própria seleção nacional a médio prazo.

"Para se ter uma noção do impacto enorme que a pandemia teve no nosso clube, o ano passado tínhamos cerca de 400 atletas, este ano não chega a um quarto desse número. Há muitos atletas que não voltaram porque os pais acham que não há condições de segurança, outros também por causa dos horários, porque ficámos sem os quatro pavilhões das escolas que usávamos e ficámos limitados apenas ao nosso Flávio Sá Leite", conta à agência Lusa o presidente academista, Rui Silva.

Segundo o dirigente, "há uma série de equipas, nomeadamente dos escalões mais baixos, que deixaram pura e simplesmente de treinar".

Ao custo financeiro - os jovens pagam uma mensalidade, menor a partir dos juvenis e juniores, encaixe que diminuiu - junta-se sobretudo o prejuízo desportivo.

"Estamos a perder gerações de atletas, os miúdos não vêm treinar e os que treinam é só com bola, não há contacto físico, e os mais velhos começam a perder a motivação, porque não há competição. Não há rotinas de jogo, são quase dois anos [desportivos] sem treinar como deve ser, outros nem treinam sequer, desistiram, e nós, os clubes, as suas equipas, e a própria seleção, vamos ter reflexos disso dentro de alguns anos", antevê Rui Silva.

O líder dos bracarenses lembra que, com os poucos recursos que tem, o ABC/UMinho "vive muito da formação”, com “cerca de 90% da equipa sénior” a vir “de lá".

"Não temos grandes capacidades de contratar e, por isso, aproveitamos o que sabemos fazer melhor e os nossos atletas têm sempre bastante qualidade. Tememos estar a perder alguns desses atletas que, provavelmente, quando chegarem à idade sénior não terão a qualidade que teriam noutros anos por causa deste tempo todo parados", diz.

A ‘Escola de Campeões', que fazia com que, diariamente, técnicos do clube se deslocassem a algumas escolas do 1.º ciclo de Braga e treinassem cerca de 100 jovens, "uma parte essencial do projeto formativo do ABC, acabou", diz à Lusa o coordenador da formação, Filipe Magalhães.

O também treinador dos juniores revela que a "gestão é muito difícil" e feita "ao dia", lamentando não haver nenhuma perspetiva de voltar a curto prazo.

"É muito tempo sem treinar para estes miúdos. Os treinos para os abaixo de 16 anos não são a mesma coisa, são essencialmente com componentes mais técnicas, perde-se o aspeto mais do jogo", nota.

O responsável considera que esta paragem terá repercussões sobretudo na geração de 2005 e 2006, "não no próximo ano, mas mais à frente", e que "vai demorar a reconquistar esse tempo perdido".

Armando Pinto, pai de João Diogo, jogador de 15 anos dos iniciados, destaca o peso da paragem na vertente psicológica, porque ditou a interrupção da convivência entre os mais jovens, muitos deles com um trajeto conjunto de vários anos, ao que se soma a "monotonia de estar em casa e a falta de competição, que os desmotiva".

"Eles lutam juntos, vencem e sofrem derrotas juntos, e a falta desse convívio, dessa disputa e dessa vivência faz muita falta", frisa, sendo corroborado pelo filho.

Já chamado para as seleções regionais, João Diogo teme que, se não houver um investimento maior no treino, a sua geração possa estar "condenada".

"Acho mesmo que, se esta geração não treinar muito mais que as outras, vai acabar por estar condenada para o andebol", diz, numa fase em que treina em casa, através da internet e via videoconferência, o que permite apenas manter alguma condição física.

O jovem central sabe estar numa fase decisiva de uma eventual carreira como andebolista, aquela que faz a triagem entre os que ficam pelo caminho e os que seguem em frente, "e a pandemia veio prejudicar esse compromisso", mas, apesar de todas as dificuldades, João Diogo não vai desistir e espera "conseguir chegar à equipa sénior um dia".

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