Braga, quarta-feira

Bispo apela à desinfeção do egoísmo e a ações concretas em prol do bem comum

Regional

25 Junho 2021

Marlene Cerqueira Marlene Cerqueira

Na homilia da missa campal em honra de S. João Baptista, D. Nuno Almeida alertou para o agravamento das desigualdades de classe, étnicas e profissionais, que se aprofundaram com a pandemia, e apelou a ações concretas em prol do bem comum.

“Combater as desigualdades e promover a cultura do bem comum é o nosso primeiro dever como cidadãos e como crentes”. Foi esta a mensagem que D. Nuno Almeida, bispo auxiliar de Braga, deixou ontem às muitas dezenas de devotos que assistiram à tradicional missa campal, celebrada no Parque da Ponte, no âmbito do programa oficial das Festas de São João.


Com uma forte mensagem social, que apelou a “acções concretas em prol do bem comum”, D. Nuno Almeida alertou que “as desigualdades estão a crescer em várias frentes” e é preciso combatê-las.


“A pandemia tornou-se o catalisador de muitas dinâmicas regressivas, agravando as diferenças existentes e revelando a persistência e visibilidade das desigualdades”, apontou o bispo, citando um estudo recente da Universidade Católica que confirma “aquilo que, no dia a dia, já podíamos constatar: a pandemia agravou as desigualdades. Em Portugal, atirou 400 mil pessoas para baixo do limiar da pobreza”.


Os idosos, os trabalhadores pobres, precários e as minorias étnicas estão entre os mais afectados pela pandemia, mas também os sem-abrigo, os presos e os portadores de deficiência, tal como os filhos de famílias com menos recursos culturais e disponibilidade que tiveram grandes dificuldades em acompanhar as actividades educativas à distância.


Realçou ainda que “as diferenças de género também aumentaram entre as dinâmicas regressivas, com “distinta desvantagem das mulheres”, referiu, mencionando os “alarmantes” números sobre violência do doméstica.


“Estes longos meses de pandemia mostraram-nos que as desigualdades de classe, étnicas e profissionais, longe de se nivelarem, se aprofundaram de facto. Um denominador comum cruza estes desafios transversalmente: uma grande perplexidade e incerteza. Há desorientação, solidão e há uma procura e sede de sentido”, constatou o bispo auxiliar, apelando que neste contexto são precisas “pessoas que saibam dar uma mão”, isto é, “ajudar a olhar para cima e para quem está ao lado”, pessoas que saibam “dar esperança”.


Para além das acções institucionais — que considera “importantes, necessárias e tão meritórias das instituições de solidariedade, dos serviços públicos e privados — D. Nuno sustenta ainda que neste tempo de pandemia é vital “redescobrimos a importância das pequenas acções”, daquilo que “cada um, cada família, cada pequeno grupo de um movimento, uma associação ou uma paróquia podem realizar”.


“Se há uma lição que aprendemos neste tempo de crise é a de que somos interdependentes e que os relacionamentos ou laços humanos são o bem mais precioso e decisivo que temos”, rematou.


Devotos cumprem tradição dentro das regras sanitárias.


A missa campal em honra de S. João Baptista, celebrada junto à Capela que lhe é dedicada no Parque da Ponte, é sempre um dos momentos mais emblemáticos do programa religioso das sanjoaninas de Braga.


Apesar dos tempos ainda serem de pandemia, muitas dezenas de pessoas acorreram ao Parque da Ponte para assistir à celebração, cumprindo as regras de segurança, nomeadamente o uso de máscara e o distanciamento. Junto à capela também havia desinfectante para as mãos.


Entre a assembleia que assistiu à eucaristia percebia-se a existência de muitas famílias. Antes, ou depois da missa, praticante todas elas passaram pela capela, depois de aguardar vez na extensa fila que se ia formando.


A missa celebrou-se este ano sem a envolvência habitual dos vendedores de farturas e de pão com chouriço, sem o cheiro da sardinha assada ou das pipocas e algodão doce. Nada disso houve este ano no São João. Mas os devotos vieram na mesma à missa demonstrando que para lá da vertente de festa popular, a vertente católica das festas da cidade continua muito enraizada na população.


A eucaristia foi solenizada pelo Grupo Coral de Santo Adrião.


A apoiar na logística estiveram também os escuteiros do CNE 297 - Santo Adrião.


D. Nuno Almeida presidiu à missa, acompanhado pelo cónego Roberto Mariz e pelo padre Domingos Paulo Oliveira, pároco de Santo Adrião.

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