Braga, quinta-feira

Cáritas apoia vidas aparentemente estabilizadas para que não caiam na pobreza

Nacional

21 Março 2021

Lusa

À Cáritas chegam cada vez mais pedidos de ajuda de famílias com vidas aparentemente estabilizadas, mas financeiramente viradas do avesso pela pandemia, que a instituição acredita poderem recuperar com um apoio silencioso que não as deixe cair na pobreza.

“Não há novos pobres, pobre é uma situação não é uma ocorrência. Não podemos deixar que uma situação de crise transforme isto numa situação de existência. As pessoas que estão neste momento em situação de risco financeiro, ainda têm muito para dar”, disse a presidente da Cáritas Portuguesa em entrevista à Lusa.
 

A pandemia de covid-19 provocou uma crise financeira levando ao despedimento de milhares de pessoas e ao encerramento de negócios. Muitos estão a tentar sobreviver sem pedir ajuda, mas “há um nível de desespero em que as pessoas não podem resolver sozinhas”, disse à Lusa Rita Valadas.
 

Por isso, “vão aparecendo gradualmente”. À Cáritas chega quem “num dia tinha o sonho de ter um negócio muito proveitoso e no seguinte teve de fechar”, mas entre os pedidos de auxílio estão também pessoas conhecidas da instituição, não porque eram apoiadas, mas porque costumavam contribuir para ajudar quem mais precisava.
 

“São pessoas cuja vida e situação económica estava aparentemente estabilizada”, resumiu a presidente, dando como exemplo empresários ou trabalhadores das áreas da restauração e turismo.
 

Em apenas um ano, o Instituto de Emprego e Formação Profissional registou um aumento de mais de cem mil novos inscritos. São agora mais de 400 mil os que estão sem emprego. Para a presidente da Cáritas estes indicadores "não são fiáveis” e encobrem uma realidade muito mais dramática.
 

Muitas das pessoas que hoje passam dificuldades “escondem-se porque tem vergonha ou porque não querem ser vistas para ninguém saber da vida delas”, disse Rita Valadas, alertando para o “sofrimento tenebroso” que atravessa quem sempre tratou da sua vida, foi independente e até ajudou quem precisava.
 

“De repente, veem-se numa situação em que nem sequer sabem como fazer, porque não conhecem os circuitos de pedir. Não sabem que podem receber um subsídio daqui ou que a junta de freguesia tem o programa tal. Só sabem que não querem aparecer. Querem adormecer, acordar no dia seguinte e já tudo ter passado”, explicou.
 

Para a presidente da Cáritas, estas situações conjunturais negativas devem ser vistas como uma fase e ser apoiadas com medidas estruturantes.
 

A Cáritas lançou a Linha de Apoio para Situações de Emergência e a campanha “Combate a Curva da Pobreza” que tem permitido dar resposta “a situações raras, pouco usadas” como ajudar a pagar a renda da casa, as contas da luz, da água ou Internet.
 

No apoio alimentar, por exemplo, em vez dos tradicionais cabazes de alimentos, a Cáritas oferece 'vouchers'. Ajudar a construir cenários pós-covid e conhecer as expectativas e possibilidades utilizando os recursos das pessoas são outras das formas de agir. A atuação da Caritas conta com a experiência adquirida na crise financeira de 2008.
 

“Para chegar às famílias temos de ter um atendimento muito silencioso, mas também bastante intencional. Estas pessoas não podem cair na pobreza. Neste momento estão numa situação de risco”, explicou Rita Valadas, defendendo que quem está “em situação de risco financeiro ainda têm muito para dar e pode não vir a cair na pobreza”.
 

Neste processo, há uma atenção especial às famílias, porque pode existir um cúmulo de situações: “Se dependia de um negócio ficaram todos na mesma situação, é uma casa inteira sem recursos”, lembrou, acrescentando os casos em que há jovens à procura do primeiro emprego ou numa situação de emprego precário.
 

A rede da Cáritas permite conhecer em profundidade o que se passa em todo o país, uma vez que existem grupos locais que atuam em proximidade nas paróquias e comunidades. A pandemia deu a conhecer novas realidades.  
 

Sobre estes novos casos, Rita Valadas deixa um alerta: “Não os podemos largar nem permitir que se vão abaixo”.

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