Braga, segunda-feira

Carlos Carvalhal: 'SC Braga é também um potencial candidato, mas será sempre um outsider'

Desporto

26 Dezembro 2020

Redação

Carlos Carvalhal abre o livro em conversa com o Correio do Minho, em jeito de balanço de final de ano. Técnico arsenalista não esconde o orgulho pelo percurso da equipa.

Vive o futebol com paixão. E de forma intensa. É no ADN de guerreiro que exalta a ambição deste SC Braga versão 2020/21. Uma equipa que espelha a génese do clube, da própria cidade, num espírito brácaro que dentro de campo faz dos arsenalistas guerreiros de alma e coração. Aos 55 anos, Carlos Carvalhal voltou às origens e ao clube que de forma emotiva o viu crescer, como jogador e depois como treinador.
Em entrevista ao Correio do Minho, lembrou o percurso algo irregular em termos profissionais, os sete anos no estrangeiro, as conquistas, desafios e desejos. Garante que o SC Braga está no bom caminho para entrar no ano do centenário recheado de bom futebol e olhos postos na luta em várias frentes, mesmo que culturalmente a tarefa seja árdua. E diz com orgulho imenso ser um treinador realizado: “a minha equipa joga muito”.

 



Correio do Minho: Na apresentação, em Julho, dizia que não gostava de trabalhos incompletos e, por isso, é que tinha regressado a casa. O que lhe falta fazer no SC Braga?
Carlos Carvalhal: Sinceramente, deixo que as coisas aconteçam. Quando cheguei ao Sheffield Wednesday fui o primeiro treinador estrangeiro e gerou muita desconfiança, porque as pessoas não me conheciam de lado nenhum. Ao fim de um mês, tinham uma canção para mim, conquistámos os adeptos, batemos muitos recordes, quebrámos muitos borregos e, no fim do segundo ano, tinha o terceiro melhor registo da história do Sheffield em termos de pontos. É uma marca espectacular para um clube com 150 anos, é absolutamente fantástico. Quando chegámos ao Rio Ave, obviamente, a tarefa era mais difícil, mas nós não projectámos absolutamente nada em termos do que podíamos conseguir. Projectámos o que podíamos fazer em termos de equipa, de jogar bem e discutir os jogos. Com esse andamento conseguimos fazer o melhor registo da história do clube na I Liga. É mais uma marca espectacular que nos deixa, extremamente, orgulhosos. Viemos para Braga e fizemos a mesma coisa. Nós não olhamos para o SC Braga com o intuito de dizer vamos fazer isto ou conseguir ganhar aquilo. O que decidimos foi fazer uma equipa para jogar bem, ganhadora, competitiva e tentar vencer o máximo de jogos possível. E, depois, vamos ver até onde vamos conseguir chegar. Eu não digo isto da boca para fora, digo isto, porque é aquilo que acredito, até pela minha própria filosofia de vida profissional desportiva. É olhar sempre para o próximo jogo.

CM: Tem sido esse o discurso habitual do mister...
CC: Farto-me de dizer isto. Não adianta muito concentrarmo-nos no destino, porque o que determina tudo é o caminho. E o caminho faz-se ao caminhar. Não adianta dizermos que vamos chegar ali, quando sabemos que para chegar a Fátima temos de ir primeiro ao Porto. De que adianta pensar que vamos para Fátima? Temos é de fazer o caminho, que tem muitas pedras e muitos imponderáveis. Temos de contar com eles também e, se calhar, vamos ter de fazer um desvio, ir a Viseu para chegar a Fátima, às vezes acontece. E vamos tropeçar e voltar para trás. Mas, nesta altura, se me pergunta por um mini-balanço digo que estou satisfeitíssimo. Estamos bem posicionados no campeonato, seguimos em frente na Taça de Portugal, estamos na final-four da Taça da Liga e na Liga Europa com brilhantismo. Até pelos golos marcados na Liga Europa e pela média de golos que temos até ao momento deixa-me orgulhoso e são indicadores de que estamos no bom caminho. Mas há tudo para ganhar. E sabe o que é o tudo para ganhar? O próximo jogo. Esse é que é o importante.

CM: Fala sempre jogo-a-jogo, nas taças, por exemplo, o caminho fica mais facilitado?

 


CC: Só tenho olhos para o próximo jogo. Não consigo pensar em mais nada, o trabalho é tão absorvente que não tenho hipótese. Vou explicar a vida de um treinador, quando fomos ao AEK, por exemplo. Terminámos o jogo uma quinta-feira à noite, ficámos a dormir na Grécia, na sexta-feira viajámos para Lisboa, no sábado fizemos um treino e no domingo jogámos. Mas quando os jogadores chegam a sábado, têm de ter o trabalho estratégico todo elaborado. E para fazer esse trabalho, para além da nossa equipa de analistas, eu próprio gosto de ver sempre três jogos da equipa adversária e gosto de analisar os jogadores todos um por um, sob o ponto de vista ofensivo e defensivo. Depois vejo os cantos e livres de todos os adversários. Só depois vejo o trabalho dos analistas e, no dia seguinte, já tenho de ter o trabalho feito para os jogadores perceberem o que vamos fazer. Agora multipliquem isto por sete ou oito jogos seguidos.

“Única preocupação é ganhar o jogo seguinte”

CM: É uma experiência de ciclos exigentes que trouxe de Inglaterra...
CC: Dois jogos em sete dias são duas noites sem dormir. Por isso, só tenho olhos para o jogo seguinte. Já vem da minha experiência de Inglaterra, em 21 dias fazia sete jogos, habituei-me a trabalhar assim, porque quem quer ter êxito a este nível não pode estar preocupado com as críticas ou com o que dizem, nem onde vamos chegar ou onde vamos estar daqui a um mês, nem sequer daqui a cinco dias. Não podemos estar preocupados com isso, foi este hábito que adquiri. O que trouxe de melhor do campeonato inglês foi a competitividade num contexto de três em três dias e o foco que tenho de ter em preparar o jogo seguinte. Percebo as questões, mas não está no meu leque de preocupações.

 


A minha única preocupação é ganhar o jogo seguinte e as consequências do meu trabalho é em função do que fizer nos jogos. Ainda para mais com a situação da pandemia tudo pode se alterar, temos de viver o dia-a-dia e o jogo seguinte, mas é no futebol e é na vida. Um dia de cada vez. Já tive lições de vida há muitos anos que me fizeram encarar a vida desta forma, viver sem muitos planos. Infelizmente, perdi dois amigos recentemente que estiveram no meu aniversário no ano passado, o Dito e o Vítor Oliveira. Se calhar, o Dito e o Vítor Oliveira estavam cheios de planos para a vida e a vida traçou-lhes este destino.

CM: Quando chegou ao clube, lembrou que Braga sempre foi conotada como sendo boa madrasta e má mãe...foi uma chamada de atenção para os adeptos ajudarem a ser uma equipa mais forte?
CC: Como experiência de vida costumo tentar ser o mais racional possível e colocar às vezes a emoção de lado. Tenho consciência de que, historicamente, o Sorting Clube de Braga foi sempre uma boa madrasta e não tão boa mãe e daí o meu alerta, porque tínhamos em mão uma excelente oportunidade para dizer a toda a gente que não é assim, que Braga é realmente uma boa madrasta, porque recebe bem as pessoas, mas é também uma excelente mãe, porque trata bem os filhos da terra, essa foi a minha intenção ao conhecer a cultura, a cidade e o clube. Se calhar, esse alerta foi bem correspondido, porque, desde o primeiro dia, senti um apoio muito grande por parte dos adeptos e só tenho pena de não estarem connosco no estádio e só terem estado no jogo memorável com o AEK.

 



CM: Quando o presidente António Salvador lhe ligou foi uma resposta mais emocional ou racional?
CC: Foi uma análise muito racional e depois com a componente emocional que está implícita. Pensei no clube, na pro- posta desportiva, não tanto na financeira, porque não era o mais importante, senão teria optado pela proposta que tinha do Flamengo, que foi pública, e outras que tinha em carteira financeiramente muito mais vantajosas. Pensei que, depois de ter estado muito tempo fora, de ter voltado ao Rio Ave, ter feito um trabalho bom, no melhor ano de sempre com a conquista da UEFA, seria uma boa oportunidade de treinar um clube com a dimensão do SC Braga. Num momento de crescimento e estabelecendo um paralelo na minha carreira, num momento de maturidade, encontrámos um ponto de intersecção interessante e que achámos que poderia dar resultado. Foi o que me levou a optar pelo SC Braga e depois estar ligado ao clube, clube da minha formação, da cidade onde nasci, tem também o seu peso.

“Prenda para o centenário do clube? O embrulho está bonito...”

M: O centenário do SC Braga assinala-se agora, em Janeiro de 2021. Que prenda gostaria de dar ao clube?
CC: Prenda é o que tenho feito. O embrulho está bonito, vamos ver por dentro, mas o embrulho é bonito. Neste momento, como adepto do SC Braga a falar com um adepto de outro clube consigo dizer isto: a minha equipa joga muito. E acho que esta é a melhor prenda que eu e o meu grupo de trabalho podemos dar. Depois, estamos nas decisões, na final-four da Taça da Liga, na Taça de Portugal, nas decisões na Liga Europa. Vamos fazer tudo para ganhar o próximo jogo e ganhar com estilo. Ganhar com fantasia, com criatividade, que dê gosto aos adeptos. Acho que hoje um adepto do SC Braga consegue ter esta conversa com qualquer adepto em Portugal. A minha equipa joga muito bom futebol. É a melhor prenda que posso dar nesta altura, só espero no final da época poder dizer a mesma coisa. Mas esta prenda está conseguida.

 



CM: O mister fala muito dos adeptos, há essa ligação forte esta temporada?
CC: O desafio é quebrar o estigma de o SC Braga ser má mãe e boa madrasta. É uma boa oportunidade. A grande mensagem que queria deixar é essa. Mais do que bracarense nós somos brácaros, conheço bem a história de Braga. Antes de chegar o império romano a Braga, antes de Bracara Augusta, habitavam aqui os brácaros e nós somos brácaros. Conheço também muito bem a mentalidade do clube, aquilo que os adeptos aspiram. Braga é o espírito guerreiro que vem desde o tempo dos brácaros, em que os adeptos se revêm neste lado guerreiro da equipa, mas, ao mesmo tempo, o lado da estética do jogo arsenalista nunca pode estar dissociado.
Este SC Braga mistura bem aquilo que eu sempre quis para o SC Braga. Conheço bem o que está na génese da própria cidade, somos uma cidade comercial, as pessoas de Braga gostam de se vestir bem, não é só as senhoras, os homens também, a cidade é bonita, gostamos de receber as pessoas, é uma cidade fascinante para quem a visita, mas temos o lado do guerreiro, do trabalho, das empresas que são empreendedoras, temos uma dinâmica muito grande empresarial a nível da informática e de vários sectores. Isto é Braga, a mistura do lado estético com o lado guerreiro e acho que este SC Braga tem isso. Sinto-me, extremamente, satisfeito até ao momento, porque temos dado isto ao SC Braga. Temos feito encontrar o SC Braga com a sua génese e era isto que eu gostava que acontecesse no futuro. O que me falta a mim é que o futebol esteve sempre ligado aos adeptos e, neste momento, não temos adeptos. Desejo ardentemente que os adeptos venham para o estádio para desfrutarem e nos ajudarem a sermos melhor, porque só assim conseguiremos cumprir o futebol na sua totalidade.

 



“Ao SC Braga imputam a grandeza, mas depois não é tratado como um grande”

CM: Fala com frequência na valorização dos jogadores. As chamadas de Paulinho e Sequeira à selecção acontecem consigo no SC Braga...
CC: É um sentimento de satisfação muito grande. O Matheus ainda agora foi eleito melhor guarda-redes, mas é um trabalho colectivo, ele representa, no fundo, a organização defensiva da equipa. Fico extremamente satisfeito quando os jogadores são valorizados e sinto que estão a ser. Não sabia da estatística de sermos a equipa mais concretizadora desde há 76 anos, isto é algo, absolutamente, fantástico. Se o SC Braga fosse aquilo que dizem que é, e que é, mas que não olham como é, um facto destes viria em destaque em toda a imprensa, iria fazer programas desportivos, seria primeira página nos jornais. Mas como ao SC Braga imputam a grandeza, mas depois não é tratado como um grande, tenho de fazer esta crítica, é um facto real. Então temos também que questionar. O SC Braga é assim tão grande como dizem? Luta por títulos? Se luta por títulos, porque é que não tem o mesmo tratamento das equipas que lutam por títulos? Há uma discrepância muito grande entre aquilo que as pessoas dizem e a realidade.

CM: Já no jogo com o AEK fez também essa crítica, depois de saber que o SC Braga era a equipa mais ofensiva da Liga Europa com 22 remates...
CC: Estou a ser factual.

CM: O que é preciso para inverter esta tendência?
CC: É cultural, não há hipótese. Percebo a métrica, tenho consciência e percebo os órgãos de comunicação social. Se temos uma percentagem muito elevada de leitores que são do Benfica, FC Porto e Sporting, as pessoas estarão mais interessadas em receber notícias destes três clubes. Isto é claríssimo para mim. Mas é cultural. Isto não acontece em todos os países. Em Inglaterra isto não existe. O que faço é devolver a questão. Se às vezes há afirmações em que dizem que o SC Braga luta por títulos, então dêem-nos o mesmo destaque, já não digo em igualdade, mas um quinto do que se fala dos outros clubes. Poderia haver mais aproximação. A aproximação que o SC Braga tem feito tem sido dentro do campo. Temos um bom grupo de jogadores, temos feito uma grande época até ao momento, não ganhámos absolutamente nada, mas estamos no bom caminho. O SC Braga investiu 500 mil euros no começo da época, com o Zé Carlos que comprou ao Leixões e ouvi falar em milhões de euros de investimento em vários clubes. Há uma discrepância muito grande entre o que as outras equipas apostaram e na realidade são as grandes candidatas a ganhar títulos em Portugal. O SC Braga é também um potencial candidato, mas será sempre um outsider, mas não é por ser um outsider que deixou já de ganhar uma Taça de Portugal, duas Taças da Liga...mas há toda uma máquina culturalmente que promove e ajuda muito mais as equipas grandes e isso reflecte-se.

CM: Mas assume o SC Braga como candidato?
CC: O SC Braga não assume nada. Só se assume a ganhar o próximo jogo, é o que temos feito. E assume também a tentativa de praticar bom futebol, para que os adeptos gostem do jogo, para valorizarmos os nossos jogadores, isso é ao que o SC Braga é candidato. Até porque, culturalmente, isso nem é possível. É uma infâmia.

CM: Sente-se magoado por não ver a valorização da equipa?
CC: Já estou habituado. Vou confessar, no ano passado, ninguém reparou no Rio Ave. O Rio Ave jogava um grande futebol e ninguém tinha reparado até que a MARCA fez uma análise ao jogo do Rio Ave e, a partir daí, despoletou a qualidade de jogo da equipa e começou a ser vista com outros olhos. A questão é pertinente, mas historicamente existem três clubes em Portugal e existem os outros. Esta é a realidade. E não vou ser que vou mudar isto. É o que é. Eu limito-me a fazer o meu trabalho, sei que o nosso trabalho é apreciado, faço uma análise a todos os adversários que jogaram connosco e todos dizem que o SC Braga pratica um grande futebol, que é das melhores equipas a praticar futebol em Portugal, até nas competições europeias os treinadores e jogadores dizem isso, o treinador do Zorya disse isso, o do AEK também, todos os adversários têm referido isso quando analisam a nossa equipa e para mim é a a minha satisfação suprema. Os nossos adversários, as pessoas do futebol que entendem verdadeiramente de futebol, consideram que o SC Braga joga bom futebol e é uma equipa forte.

“Não copiamos ninguém em termos de estratégia, são dinâmicas que criamos”

CM: Diz que chegou a Braga num momento de maturidade. É um Carlos Carvalhal diferente do que passou pelo clube há 13 anos após as experiências na Grécia, Turquia e Inglaterra?
CC: Mau era se não fosse…da minha parte mudou muito, sou uma pessoa muito atenta, muito estudiosa, sei também escolher os elementos da minha equipa técnica, gente de grande qualidade, fun- damentais para a dinâmica que criamos. Diferente pelas experiências que tivemos, não só a nível desportivo, a nível social também, situações de trabalhos extremamente complicados, nos limites de tudo. Recordo o trabalho no Sporting, foi uma experiência absolutamente fantástica. E, quando pensava que não ia encontrar um trabalho mais difícil, encontrei no Besiktas dez vezes pior. Estava num país diferente, numa cultura e língua diferente, uma equipa técnica que era de outro treinador que tinha sido preso e eu fui substituí-lo com a promessa de que, se o treinador voltasse da prisão, o lugar seria dele, o que iria acontecer em seis/sete meses e por isso aceitei o repto. Só que ele saiu mais cedo, queria treinar, sabotaram o meu trabalho a determinada altura e o que fez com que terminasse a época foi o facto de ter os jogadores na minha mão e os adeptos do meu lado. Levou-me a que, de uma forma estóica, sem a minha equipa técnica e num país diferente, conseguisse fazer aquela época boa no Besiktas. Estas experiências são extremamente enriquecedoras em termos de liderança, somos postos à prova nos limites em várias situações e, nesses dois trabalhos, fui colocado à prova em todos os limites que as pessoas possam imaginar.

CM: Uma aprendizagem social e, sobretudo, desportiva...
CC: Paralelamente há também essa parte, contextos de jogo, dinâmicas de jogo, jogadores com diferentes nacionalidades, para não falar da passagem pela Grécia e culminou com a situação em Inglaterra, uma aprendizagem tremenda na qual nos saímos muito bem, num contexto muito difícil e diferente. Problemas de ordem táctica, de organização, recuperação entre jogos e competitividade, ao mesmo tempo que valorizámos o clube, recebemos também uma aprendizagem constante sob o ponto de vista de preparação num contexto de jogos sistematicamente de sete jogos em 21 dias. Isso deu-nos uma bagagem muito grande. Em termos tácticos, houve coisas que nos inquietaram. No Sheffield, jogávamos sempre em 4x4x2 e quando saímos no terceiro ano comecei a falar sobre a necessidade de alterarmos a dinâmica da equipa. Quando chegámos ao Swansea experimentámos coisas novas, um sistema numa linha de cinco, depois uma linha de quatro atrás, mas nas conversas com o João Mário sentíamos que podíamos quebrar algumas coisas para fazer uma equipa em termos de organização táctica.

CM: Seguiu-se o Rio Ave...
CC: A escolha do Rio Ave teve a ver com o convite do Sr. Campos, com a estrutura leve do clube, sem muita pressão e uma equipa com bons jogadores que necessitavam de ser potenciados. Na altura, foi um risco muito grande, tínhamos vindo do Swansea, da Premier League, os meus amigos diziam-me: ou és maluco ou tens uma auto-confiança do caraças, porque se isto correr mal vais dar um trambolhão na carreira. Mas nós confiamos muito no nosso trabalho e era importante experimentar coisas novas. Testámos no Rio Ave algo de novo, no início foi difícil, à sétima jornada o Tarantini veio falar comigo e disse-me: mister tenha cuidado, parece que o que quer é demasiado para o nível dos jogadores do Rio Ave. Acabei por falar com o grupo, prosseguimos o nosso trabalho e quando começámos a encarreirar, ganhámos muitos jogos e o Rio Ave foi das equipas com melhor futebol no ano passado, sem dúvida. O SC Braga vem nesta sequência, na nossa quebra total em relação ao passado na preparação da equipa, de desafio aos jogadores sob o ponto de vista táctico, de organização, sabendo que, se eles conseguirem perceber o que nós pretendemos, tornam-se muito melhores jogadores. Daí a venda de jogadores no Rio Ave e vai acontecer o mesmo aqui no SC Braga. Aliás, já está a acontecer, já temos a valorização na dinâmica que criámos. É uma dinâmica evolutiva, não é estática. Já ouvi dizer que o SC Braga joga em 4x4x2, com uma linha de cinco, que se transformava em três sistemas durante o próprio jogo. Vi também com agrado um comentador dizer que o SC Braga era uma equipa de autor, fico muito satisfeito. Realmente é uma equipa, não de autor, mas de autores, da nossa equipa técnica. Não copiámos ninguém em termos de estratégia, são dinâmicas que criamos. Estamos, extremamente, satisfeitos com a valorização do bom futebol, um futebol positivo, de ataque, com muitos golos e valorização dos jogadores.

CM: Afinal como joga o SC Braga, até quando jogou o Raúl Silva no Dragão disse que jogou sempre no mesmo sistema táctico…
CC: Não me vou alongar muito, os analistas que façam como eu, que analisem a fundo. O que posso dizer é que não trabalhamos a nossa equipa sob o ponto de vista de um sistema, ou melhor, nós temos um sistema de base, de posicionamento de jogadores no campo, mas depois são as dinâmicas e conceitos de jogo que aparecem com naturalidade, mas não em função de um sistema mecanizado e estanque em que os jogadores têm de fazer isto ou aquilo. Temos os grandes princípios de jogo e sub-dinâmicas que são treinadas e os jogadores entendem perfeitamente o que queremos.
No início não entendiam tanto, agora muito melhor. O que posso dizer é que, se calhar, a análise à evolução da equipa daqui a duas semanas é diferente da que se fez hoje, porque está sempre a evoluir. Não é que eu queira guardar um segredo...”.

CM: Não quer abrir o jogo...
CC: Sou uma pessoa aberta, abro os meus treinos a jovens treinadores, sempre fiz isso, nas palestras que faço em cursos de treinador e formações exponho o que faço, mas também cheguei a uma conclusão: as pessoas têm de trabalhar e de se esforçar. Se quiserem perceber como jogamos, têm de perder tempo a analisar os nossos jogos, porque não vou dizer nada.

“Ando limpinho no futebol...ou melhor, limpíssimo”

CM: Confessa ter ADN Braga, faz de si um melhor treinador?
CC: Tenho uma independência muito grande a todos os níveis e isso permite-me ser melhor treinador, porque tomo as decisões sempre com a minha cabeça, o que é importantíssimo e acho que jogadores sentem essa independência, liberdade e o meu gosto pelo SC Braga. Tenho muito do SC Braga, da génese do clube, também muito influência de treinadores que passaram pelo clube, nomeadamente, o Quinito, sobre o lado positivo e alegre da vida, do bom futebol que o SC Braga cultivou sempre na sua formação, na altura em que era o Carlos Baptista que liderava a formação. E eu nunca perdi esse meu lado do gosto pelo bom futebol, pelo futebol arsenalista que, já desde bebé, pela mão do meu pai e da minha mãe, assistia aos jogos no 28 de Maio, via desde menino pela mão dos meus pais. Adorava ver o SC Braga jogar, lembro-me do Garcia, do Ronaldo, Vilaça, João Cardoso, Lito, Chico Gordo e Chico Faria... sempre fiquei fascinado pela forma como o SC Braga jogava e isso teve uma influência muito grande.

CM: Diz não lhe faltar nada. O futebol tem-lhe dado justiça?
CC: Sou muito grato ao futebol, só que tenho um percurso diferente, quem parar para ver é um percurso muito anormal, treinei todas as divisões em Portugal, desde a terceira divisão, a um clube grande como Sporting e SC Braga e depois fui para o estrangeiro. Mas o meu percurso é muito irregular, porque nunca tive realmente uma ajuda que me ajudasse a dar um salto na carreira. Quando faço a época no Vitória de Setúbal, um trabalho absolutamente fantástico, ganhámos a Taça da Liga, fomos à UEFA e meias finais da Taça, o que deveria acontecer era treinar um clube grande a seguir, mas não foi o que aconteceu. Porque o Benfica tinha treinador, o FC Porto e Sporting também, não houve a possibilidade e também ninguém me convidou para dar o salto. Apareceu-me um clube na Grécia, eu ganhava 5 mil euros e fui ganhar muito mais. Não conhecia nada e lancei-me naquela aventura sem ter conhecimento mínimo e cometi muitos erros de avaliação. Isso foi um obstáculo na minha carreira, financeiramente foi bom, mas não foi uma sequência normal. Quando estava no Sheffield faço um trabalho absolutamente fantástico no final do primeiro ano, completamente under dogs, conseguimos chegar ao play-off e o normal seria saltar para a Premier. Tive essa oportunidade e não quis, para completar o trabalho no Sheffield. Chego ao final do segundo ano, tenho outra vez oportunidade e não vou por estar ligado intimamente ao clube e aos adeptos. E fiquei lá, perdi imenso dinheiro em termos de contrato e em termos de prestígio também. Acabo por estar mais meio ano e quando saio fui convidado por um dos clubes anteriores, o Swansea. Chego à Premier um pouco aos repelões, não numa sequência normal, quando podia ter ido logo após o primeiro ano.
Do Swansea fui treinar o Rio Ave, com todo o respeito não era o natural. Como não foi natural não ter ido para o Flamengo, não se recusa um clube como o Flamengo, tenho consciência disso, é o melhor clube na América do Sul, um dos melhores do mundo, era um contrato fabuloso e eu acabei por vir para Braga.

CM: Foi um impulso?
CC: Prefiro assim, é a paixão que me move, o meu impulso, quero ir onde sou desejado, ponto número um. Depois onde sinto que posso fazer trabalho, onde posso valorizar jogadores, onde possa praticar bom futebol. Isso é o que me anima, não tanto treinar este ou aquele clube. Se me convidarem com esta mesma paixão e intencionalidade, naturalmente um dia mais tarde irei aceitar um clube da Premier em Inglaterra, creio que isso vai acontecer com naturalidade. Se não acontecer e estiver no SC Braga e ficar cá, não tenho problema nenhum. Levanto-me de manhã, gosto de me sentir feliz para o sítio onde vou trabalhar e sentir que os jogadores gostam do meu trabalho, o presidente e os adeptos. Isto é fundamental e faz de mim um treinador feliz.

CM: Diz ter independência, no futebol nem sempre acontece...
CC: Eu tenho independência, ando limpinho no futebol, ou melhor, limpíssimo, não estou agarrado a nenhum agente, a nenhum interesse de ninguém, nem devo favores a ninguém. E os meus jogadores sentem isso, até na questão das escolhas.

CM: Castro e Gaitán - jogadores com provas dadas - escolheram Braga. É sinal de um clube cada vez mais apetecível?
CC: O SC Braga consegue abarcar, neste momento, aquele jogador de elevado potencial, mas que por este ou aquele motivo, nas épocas anteriores, não esteve a um nível muito alto e teria expectativa de ir para um Benfica, Sporting ou Porto. E o SC Braga consegue absorver essa classe de jogadores. Isso é bom. Dá-lhes palco.

“Não temos uma ovelha negra no plantel”

CM: Já assumiu precisar de reforçar o plantel agora no mercado de Janeiro? Rúben Vinagre entra na equação?
CC: Não vou falar de jogadores que não pertencem ao SC Braga. Parece-me óbvio que necessitamos de um jogador para substituir o Moura, porque, para além do Galeno, não temos nenhum jogador para aquela posição. Assumo essa necessidade. E assumo também que falar do meio- -campo não faz sentido nenhum, temos cinco médios, todos de elevada qualidade: Fransérgio, Musrati, Castro, Novais e André Horta. Temos cinco médios que nos dão totais garantias e jogadores da formação que são reforços para o SC Braga de amanhã.

CM: Nos últimos anos, Bruno Viana foi uma espécie de patinho feio...sente que está um jogador mais completo este ano?
CC: Uma boa organização defensiva, bem trabalhada, normalmente valoriza os jogadores, parecem ainda melhor do que são. Uma organização defensiva não muito bem trabalhada desvaloriza os jogadores, parece que são outros. Tendo uma boa organização defensiva como temos ficam todos valorizados e acho que está a acontecer.

CM: Sei que não gosta de individualizar, mas ficou surpreendido com algum jogador a nível desportivo e pessoal?
CC: Os jogadores quase todos eles me surpreenderam pela positiva, o que mais me agrada é que, em termos de grupo, temos uma equipa forte, é um aspecto importante. Numa sociedade cada vez mais individualista, quando estamos inseridos num grupo em que há ligação, emotividade, afectividade, temos de ficar satisfeitos. Como líder tenho também esse papel, para que os jogadores entre si tenham essa emotividade para que o trabalho seja realizado num ambiente sadio. E nós temos isso em Braga. Não temos uma ovelha negra no plantel, por vezes acontece uma personalidade mais difícil, o que é normal, já me aconteceu trabalhar com quinze personalidades difíceis ou mais, já me aconteceu trabalhar numa equipa onde havia porrada todos os dias, na Grécia, entre os gregos e argentinos. Felizmente aqui no SC Braga temos um bom ambiente. O facto de termos reduzido o plantel ao mínimo também ajuda, todos os jogadores praticamente são convocados, todos vislumbram a possibilidade de jogar e abrimos aos miúdos da formação. Temos o olho na Academia. O Rodrigo Gomes, tem 17 anos, e mais uma vez, por exemplo, numa equipa grande, o Rodrigo já teria sido capa de jornal, seria manchete por ter 17 anos e a competência que tem. Internamente estamos extremamente satisfeitos com o rendimento dele e com os que podem seguir, temos muitos miúdos com competência.

“SC Braga aproxima-se dos melhores clubes”

CM: Desde a última passagem pelo clube sente grandes diferenças da estrutura do SC Braga para agora?
CC: O SC Braga evoluiu imenso nas infra-estruturas, no pessoal de apoio, em tudo. Não há comparação possível. Não fiquei surpreendido, porque fomos acompanhando o SC Braga e percebemos que estava a crescer, com naturalidade o SC Braga aproxima-se dos melhores clubes. Fiquei contente por rever muitos dos amigos que já tinha aqui no clube, satisfeito pelas infra-estruturas, pela estrutura humana com gente muito boa. A minha concentração é ter um campo para treinar e bolas.

CM: E a relação com o presidente António Salvador?
CC: Tenho uma boa relação com ele, já tinha da outra passagem pelo clube, já o conhecia antes, já convivemos e tínhamos jantado juntos com amigos comuns, tenho uma boa relação com ele. É fácil lidar com ele sabendo lidar com ele, é difícil se não soubermos lidar. Para mim é fácil, nunca tive um único problema com ele.

CM: Sendo um treinador com ambição no sentido desportivo, tem como meta experimentar uma equipa de topo?
CC: Os sul americanos utilizam muito esta expressão: eu ando a mendigar por bom futebol. O que me anima é colocar as equipas a jogar bom futebol, que as pessoas reconheçam que as minhas equipas joguem bem. Sinto-me um treinador realizado. Ou melhor, não estou realizado, estou realizadíssimo, quando olho e vejo o treinador do Estoril a dizer que o SC Braga pratica um grande futebol, o Brendan Rodgers a dizer que o SC Braga pratica um grande futebol, os analistas a dizerem o mesmo, isto para mim torna-me um treinador realizadíssimo, por sentir que isto está também ligado ao facto de estar a potenciar os jogadores, estamos a ajudar os jogadores a serem melhores e não há nada melhor do que isto. Penso da mesma forma hoje como quando tinha seis anos. Gosto do futebol, gosto dos adeptos, os meus olhos abrem quando vejo uma equipa a jogar bem, quando vejo um grande golo, isto é o que me anima todos os dias. Quero focar-me no bom futebol, no treino, nos golos. Estou no SC Braga e sei que um dia não vou estar, isto é tão líquido como a morte. Um dia vamos morrer. Hoje estou no SC Braga, amanhã não vou estar. O que quero a seguir, daqui a um ano, a dois, a cinco, dez ou vinte, uma semana, é estar num sítio como estive no Sheffield, no Swansea, Rio Ave e SC Braga: sinto-me querido, desejado, os jogadores gostam do meu trabalho, a massa associativa aprecia o meu trabalho e os adeptos adversários reconhecem o nosso valor.

Deixa o teu comentário