Braga, quarta-feira

Carlos Resende: O ABC deu-me amplitude internacional

Desporto

27 Maio 2020

Redação

Carlos Resende, considerado uma das referências do andebol português, passou em revista uma carreira de sucesso. Em Braga atingiu o patamar mais alto, quando conquistou o estatuto, por exemplo, de melhor marcador da Liga dos Campeões.

Em entrevista concedida à Federação Portuguesa de Andebol, Carlos Resende passou em revista todos os momentos de uma carreira ímpar, desde as passagens por Sporting e FC Porto até à chegada ao ABC, clube em que admite ter atingido o patamar mais alto da carreira. Chegou em 1994 e permaneceu no clube durante seis anos.

“Foi muito interessante para mim, porque o FC Porto deu-me uma amplitude nacional e o ABC uma amplitude internacional. O ABC, para além de continuar a ter excelentes resultados internamente, tendo ido à final da Liga dos Campeões, no ano anterior, permitiu-me ser o melhor marcador dessa prova em dois anos consecutivos. Acima de tudo, permitiu-me crescer a nível internacional”, explicou, antes de explicar que, antes de assinar pelos bracarenses nunca tinha definido o objectivo de alinhar no clube que, naquela altura, dominava o andebol em Portugal.

“Simplesmente, o ABC era aquele adversário icónico a quem nós tentávamos ganhar e não conseguíamos. Aliás, olhava para o ABC com reticências, na medida em que nós lutávamos arduamente contra aquela equipa que era um verdadeiro adversário, ponto final. Era isso que eu via naquele clube.”

Em Braga, durante seis anos, conquistou cinco campeonatos nacionais, duas supertaças e quatro Taças de Portugal. Convidado a eleger o título que mais o marcou, Resende preferiu não individualizar, mas recordou um episódio com o Sporting...

“Todos os títulos e todas as derrotas proporcionam-nos emoções, opostas, obviamente. Desde o primeiro ao último, todos eles foram especiais na sua medida e não consigo destacar um em particular.

Houve uma situação, na altura, difícil quer para o ABC quer para o Sporting CP, numa final de um play-off à melhor de cinco onde ganhámos 13-1 no 4.º jogo, se a memória não me falha, fizemos a festa de campeão e o Sporting CP protestou o jogo. Mais tarde, a minha equipa foi de férias e acabou por ser dada razão ao Sporting CP. Tivemos que repetir o jogo e até já nos faltava o central titular, que tinha já assinado por outra equipa e foi um ano complicado para todos”, referiu o técnico de 48 anos que deixou recentemento o comando do Benfica.

“Foi fácil sobressair e convidaram-me logo no primeiro dia a ficar”

Carlos Resende começou a dar os primeiros passos no Andebol em 1979, no Ateneu de Madre Deus, em Lisboa, e em 1983 foi fazeres testes ao Sporting. “O Ateneu de Madre Deus não tinha mais escalões, era muito limitado e eu tinha duas hipóteses: deixava de jogar andebol ou mudava de clube. Na altura, equacionei a hipótese de deixar e pratiquei atletismo, fiz alguns jogos por uma equipa de futebol, mas depois uns amigos que tinham jogado andebol comigo ligaram-me a dizer que tinham ido fazer testes ao Sporting CP e tinham ficado. Eles desafiaram-me a ir também e eu fui. Foi engraçado, ao contrário daquilo que é hoje, era uma distância muito grande. No dia em que cheguei lá lembro-me perfeitamente que eram imensos miúdos para fazer o teste – hoje isso é raro acontecer – eu tive a sorte de ficar num grupo em que os meus companheiros tinham algumas dificuldades a jogar, ou seja, foi fácil sobressair e convidaram-me logo no primeiro dia para ficar”

“Em jeito de brincadeira, disse ao meu pai que um dia ia eu para lá... E aconteceu”

“Eu tinha acabado de fazer 17 anos, era juvenil, quando fui convidado pelo FC Porto e era apenas um jovem e nunca tinha ido a uma Selecção Nacional. Tinha ido apenas a um projecto de Selecção Regional. Fiquei extremamente satisfeito porque quer eu, quer a minha família, temos um gosto pelo FC Porto e recordo-me de um episódio em que estava a ver a final da Liga dos Campeões de futebol com o meu pai e, na altura, falava-se que o FC Porto tinha contratado imensos jogadores de destaque no andebol, como o José Luzia, o João Santa Bárbara, jogadores que eu idolatrava. E, em jeito de brincadeira, disse ao meu pai “qualquer dia vou eu” e a verdade é que aconteceu. Passado umas semanas ligaram-me para eu ir fazer um teste e até pensei que era brincadeira, mas foi sério e aceitei. esse período foi extremamente importante a todos os níveis, eu era um jovem e permitiu-me ter uma presença assídua na Selecção Nacional.”

“Sempre fui patriótico e tinha prazer em vencer estrangeiros”

O que me levou a não aceitar as propostas de clubes estrangeiros foi o facto de o ABC viver um momento de algum equilíbrio financeiro e eu tinha a sorte de ter um salário bastante interessante em Portugal. Por outro lado, o ABC tinha uma dimensão internacional, ou seja, com aquele clube eu podia jogar na Liga dos Campeões, podia defrontar algumas das melhores equipas do mundo e as únicas equipas estrangeiras que me convidaram não me aliciavam tanto quanto estar a lutar numa equipa portuguesa por títulos em Portugal. Eu sempre fui um pouco patriótico e admito que o prazer que tinha em jogar numa equipa portuguesa contra equipas estrangeiras e poder vencê-las, não o teria se jogasse numa equipa estrangeira.”

“Nunca foi um objectivo, aconteceu pelo contexto”

“Nunca estabeleci grandes objectivos de ser treinador, foi apenas o contexto que o proporcionou. A minha licenciatura em Gestão do Desporto. O facto de eu estar ligado ao treino veio muito no sentido de que quando eu estava a terminar a licenciatura percebi que podia dar algum contributo a ensinar. Paralelamente formei-me nesta questão de professor e ser treinador permite-me estar mais perto do campo. Até agora não tenho tido saudades de jogar andebol e isso deve-se à actividade que tenho enquanto treinador, porque se não exercesse essa actividade, teria muitas saudades”, disse, abordando o processo que culminou com o fim da carreira de jogador. “Muitos colegas meus tinham deixado de jogar e eu aproveitei e deixei também.”

“Sendo patriota, jogar pelo meu país é o expoente máximo”

Os números falam por si e as mais de 250 internacionalizações revelam, uma consistências de que Carlos Resende se orgulha.

“Um jogador que está assim há tanto tempo ao serviço de uma Selecção Nacional é, pelo menos, um jogador consistente. Não sou caso único, vários jogadores da minha geração conseguiram-no e para mim, sendo patriota e ter jogado pelo meu país é o expoente máximo que qualquer jogador pode ter. Quando somos seleccionados, pressupõem que, na nossa actividade, somos o melhor que há no nosso país e nem nos podemos comparar com outros jogardes de outros países porque são realidades diferentes. Todos os jogadores de andebol em Portugal tiveram condições semelhantes e com isso permitiu-me, a mim e aos meus colegas de Seleção, destacarmo-nos naquilo que eram as nossas qualidades. Tudo isto ao longo de 17 ou 18 anos”, referiu, considerando que os melhores momentos que viveu na Selecção foram “todos aqueles campeonatos da Europa e do Mundo, principalmente os mais recentes.

“Tive a oportunidade de estar em quatros Europeus e outros tantos Mundiais, se a memória não me falha, e todos eles foram interessantes porque era a hipótese que nós tínhamos de nos compararmos desportivamente com outras Selecções Nacionais. Foi também muito gratificante ver que, ao longo da minha carreira enquanto atleta, houve uma evolução notória dos resultados que Portugal foi conseguindo, isso também me deu um prazer enorme. No entanto, houve um ano desportivo que correu francamente bem para nós porque coincidiu com o facto de termos ficado em 7.º lugar no Campeonato da Europa, que tinha um formato bastante diferente do actual em que só estavam presente 12 equipas, ou seja, chegar lá já era extraordinário. Nesse torneio fui seleccionado para o 7 ideal da competição, penso que ainda é um feito inédito até agora”, disse, expressando orgulho pelos resultados recentes.

“Fiquei cheio de orgulho a ver a nossa equipa a jogar, ainda por cima confesso que sempre foi algo que defendi, que o treinador das Selecções Nacionais devia ser do país de origem. Aliás, não só o seleccionador como também os fisioterapeutas, médicos... Acho que quando se trata de Selecções Nacionais, é isso que faz todo o sentido. Quando Portugal conseguiu o 6.º lugar, ainda por cima com um treinador português tem ainda mais valor.”

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