Braga, segunda-feira

Em "Madrepérola" Capicua 'rappa' sobre coisas sérias de uma forma mais solar

Diversos

22 Janeiro 2020

Lusa

Ao terceiro álbum, a rapper Capicua volta a abordar temas como o machismo e a gentrificação, mas de uma forma mais solar, mais dançável, com mais canções e uma mão cheia de convidados de Portugal e do Brasil.

“Acho que é o disco mais solar que já fiz”, afirmou Capicua em entrevista à Lusa, a propósito de “Madrepérola”, a ser editado na sexta-feira.
 

As razões são várias: a inspiração na música brasileira, o facto de os temas serem mais dançáveis, mais canções do que ‘raps’, e o momento feliz que vive, da maternidade.
 

Em “Madrepérola”, Capicua tentou “fazer um bocadinho aquilo que os brasileiros fazem muito bem e com muita classe: música alegre sem ser pateta, sem facilitar”.
 

“Fui buscar um bocadinho esse ‘jeito alegre de ser triste’ para falar de coisas sérias, indo por uma abordagem mais irónica, mais cómica, mais solar”, referiu.
 

Depois de “Sereia Louca” (2008) e “Medusa” (2015), Capicua sentia “que já dominava os temas mais político-sociais, as coisas mais emocionais”.
 

“Já tinha feito isso várias vezes, de várias formas diferentes, mas ainda não tinha transformado a minha música nesse sentido mais dançável, mais feliz, mais solar, mesmo falando de coisas sérias e importantes”, afirmou.
 

Em termos musicais, “Madrepérola” é um álbum “mais dançável, com mais canções, no sentido mais clássico, tem mais participações de vozes a cantar - porque eu faço ‘rap’, não canto - e tem muitos convidados brasileiros – os ‘rappers’ Karol Conka, Emicida, Rael, Rincon Sapiência e a cantora Mallu Magalhães”.
 

A tudo isso junta-se o momento que Capicua está a viver. Mãe há quase um ano, a ‘rapper’ fala de “um momento muito feliz”. A ‘rapper’ escreveu e gravou o disco grávida, ainda em 2018, e o nascimento do primeiro filho acabou por fazer com que “Madrepérola” fosse editado mais tarde do que o previsto.
 

O título do disco é, “obviamente, uma alusão à maternidade”, mas não só.
 

“A metáfora da ostra que faz a pérola tem tudo que ver com falar de coisas sérias de uma forma mais luminosa, no sentido em que as ostras só fazem pérola quando entra um grão de areia na concha e começa a incomodar, elas criam uma espécie de baba que vai cobrindo esse grão de areia porque querem que deixe de incomodá-las e acabam por criar uma pérola”, contou.
 

A ideia é, para Capicua, “poderosa”, porque “a arte serve para transformar os incómodos em beleza, no sentido mais filosófico e puro do termo”. “É um bocadinho uma digestão daquilo que nos incomoda, nem que seja a nossa própria mortalidade, a humanidade em toda a sua fragilidade, todos os incómodos do dia-a-dia, e transformar tudo isso em música, em literatura, em dança, em teatro”, explicou.
 

Além disso, o processo de criação das pérolas “também tem muito que ver com a própria maternidade, que é tão cheia de incómodos e desconfortos, e de provações físicas e que implica uma superação permanente”.
 

Ainda mais do que nos álbuns anteriores, em “Madrepérola” Capicua evoca referências de sempre: os cantores Chico Buarque (“Esfera turquesa, como os olhos do Chico. Eu tenho a certeza, se me pedires eu fico”, no tema “A minha ilha”) e Sérgio Godinho (utilização da letra de “Parto sem dor”, de 1979, no tema que batizou o mesmo tema), o Porto (cidade que ‘rappa’ em “Circunvalação”), a escritora Sophia de Mello Breyner Andresen (de quem cita versos em “A minha ilha”) ou o ‘hip-hop’ clássico (o ‘sample’ de “The Message”, de Grandmaster Flash, marca o ritmo do refrão de “Circunvalação”).
 

“Madrepérola” é também o álbum que junta mais convidados, “há os cúmplices do costume e as novidades, que faz com que discos evoluam”.
 

Entre os produtores, contam-se nomes como D-One, Stereossauro, Ride, Virtus, Minus, Branko, PEDRO e Holy, nas vozes estão, além dos convidados brasileiros, Catarina Salinas, (dos Best Youth), o fadista Ricardo Ribeiro, Lena D’Água e o ator Pedro Lamares, que declama um excerto do livro “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, no tema “Cartas a jovens poetas”.
 

No tema que conta com a participação de Pedro Lamares, Capicua responde a mensagens de jovens ‘rappers’, que recebe com alguma frequência.
 

“Acho engraçado, mas ao mesmo tempo é um bocadinho desconfortável para mim, porque muita gente manda músicas para eu comentar, ou textos, e não gosto muito de estar nessa situação de comentar o trabalho alheio, até porque às vezes as pessoas não querem ouvir a crítica na realidade e fico sempre sem saber muito bem o que responder, apesar de responder sempre ou quase sempre”, contou.
 

Além das cartas, nos últimos anos Capicua tem organizado encontros com jovens ‘rappers’ mulheres que querem começar. E foi aí que começou a pensar “como poderia ‘aconselhar’ sem estar numa posição desconfortável de quem está a dar lições sobre coisas que não são propriamente transmissíveis, porque esta coisa da criação artística é de facto muito pessoal, mas ao mesmo tempo não ignorando as dúvidas”.
 

Foi em Rainer Maria Rilke que buscou inspiração e que concluiu que o melhor é dizer: “tu fazes isto porque precisas, então sê o mais fiel a ti próprio possível e o resto é secundário”.
 

Ao longo da carreira tem sido isso que Capicua tem feito, sem ceder às pressões de que fala em “Passiflora”: “Fosse fácil eram muitas, se fosse doce eram mais. (…) O que eu faço é o mesmo de sempre, é hip-hop clássico! (…) E o hip-hop que eu quero para o futuro não será conservador, nem machista, nem burro! (…) Se fosses mais bonita, mais sexy, na moda ou um homem, mais jovem, mais dentro da norma”.
 

“Ser mulher tem muitos desafios muito mais exigentes do que esse de ser mulher no rap. Ser mulher no geral exige que façamos muitas pérolas, permanentemente, com os nossos grãos de areia, e que contornemos muitos obstáculos”, defendeu, lembrando o momento atual “em que a luta pelos direitos das mulheres é tão descredibilizada e tão ridicularizada, tantas vezes, e em que se assiste a um mundo cada vez mais de memória curta, em que parece que estamos a sentir os anos 1930 outra vez e ver os novos fascismos a florescer”.
 

“É preciso estar cada vez mais atento e fazer o nosso trabalho e a minha música é só mais um contributo”, alertou.
 

A ‘rapper’ concorda quando se lhe diz que este é o disco ‘mais Capicua’ de todos os que já editou. “Com o tempo e com o trabalho vamos atalhando caminho, conseguimos chegar mais rapidamente àquilo que nos cumpre enquanto artistas, cumprir a nossa visão, concretizá-la de uma forma mas eficaz. Mas, para isso acontecer é preciso carregarmos connosco todas as pessoas que nos inspiram, as referências”, disse.

“Madrepérola” é, para Capicua, “o melhor disco” que já fez. “Mesmo que as pessoas não venham a entendê-lo como tal, acho que estou mais capaz de fazer aquilo a que me propus em termos artísticos e de cumprir a minha visão. Tem um estilo mais apurado, tem mais recursos e nesse sentido acho que estou mais Capicua do que nunca, sim”.

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