Braga, quarta-feira

Estaleiro da Saudade faz jus à história da empresa que Viana guarda no coração

Regional

28 Dezembro 2020

Redação

Livro ENVC: o Estaleiro da Saudade, da autoria da jornalista Ana Peixoto Fernandes e do fotógrafo Egídio Santos, acaba de ser lançado pelo Município de Viana do Castelo com o objectivo de fazer jus à história do Estaleiro e preservar a sua memória no futuro.

É para fazer jus à história dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e preservar a memória de um património industrial ligado ao mar e à cidade, que a Câmara Municipal, liderada por José Maria Costa, adquiriu o espólio fotográfico sobre os estaleiros do fotógrafo Egídio Santos e lançou o desafio à jorna- lista Ana Peixoto Fernandes para juntar as suas reportagens que, ao longo dos últimos anos, acompanharam o encerramento de uma empresa, com a qual vianenses, e não só, tinham, “uma ligação afectiva”.

O resultado final é uma obra, intitulada ‘ENVC: o Estaleiro da Saudade’, que atravessa a história dos estaleiros navais ao longo de 170 páginas. As fotos de Egídio Santos são inéditas e reveladas só agora.

“O desafio foi-me lançado pelo presidente da Câmara de Viana do Castelo, em Julho, após ter adquirido o espólio de Egídio Santos. O objectivo era contar a parte da história que estava por contar sobre a fase final e desfecho da empresa, mas acabámos por ir mais além e o livro abrange toda a história do Estaleiro”, contou a autora da obra ao ‘Correio do Minho’. “Fiquei muito surpreendida, mas senti que tinha de abraçar o desafio”.

“Creio que é da máxima importância a preservação da memória dos ENVC, uma empresa muito particular e especial, que ainda vive, e penso que viverá por muito tempo, no coração da cidade e das suas gentes”, refere Ana Peixoto Fernandes, confesasndo que, apesar do convite ter surgido no meio da crise pandémica, acabou por se tornar numa “aventura muito bonita” e na concretização de um sonho antigo: escrever um livro.

“Foi uma honra, por todas as razões: a grandeza dos ENVC e da sua comunidade, escrever para ilustrar o espólio fotográfico inigualável do Egídio Santos, e ver a publicação ser ‘desenhada’ pelo Rui Carvalho. E depois a forma como presidente da Câmara de Viana do Castelo, José Maria Costa, confiou no meu trabalho e como as pessoas acolheram o projecto de braços abertos. Foi tocante”, admitiu a jornalista, tal como já havia afirmado na apresentação pública da obra.

“Acompanhei a luta dos trabalhadores. Fiz cobertura das manifestações e acções de luta. Foram momentos muito acesos. Houve uma relutância muito grande a que empresa fechasse. Não era só pelo emprego. Havia uma ligação afectiva muito grande ao Estaleiro. Os trabalhadores eram uma comunidade unida e sólida. O encerramento provocou dor. A esperança foi morrendo, embora ainda hoje haja quem defenda que era possível outro cenário, com a continuidade dos ENVC como empresa pública, mas com menos trabalhadores”, frisou, recordando que quando fechou, a empresa empregava mais de 600 trabalhadores, embora nos tempos áureos tenha chegado aos 2000, sendo a esmagadora maioria de Viana, mas também de concelhos vizinhos, no Alto Minho, até Esposende e Barcelos.

“O livro reúne textos intercalados com depoimentos de figuras ligadas à empresa, desde antigos trabalhadores, administradores, políticos e gente da Cultura. Conta histórias e traz à luz posições sobre o desfecho da empresa, desde Paulo Portas, a Ana Gomes, Jerônimo de Sousa, Armênio Carlos, ao actor Nuno Lopes e o realizador Marco Martins, que em 2012 fez uma peça de teatro com os trabalhadores no papel de actores”.

Entre os testemunhos está também o actual presidente da Câmara de Viana, que trabalhou no Estaleiro oito anos, e outras personalidades, como Carlos Martins do grupo Martifer, que actualmente detém o estaleiro de Viana. “Têm visões muito diversas e bastante emocionais da vida dos ENVC”, frisou a jornalista, indicando que o antigo ministro da Defesa, Aguiar Branco, foi convidado a fazer um depoimento, “mas recusou categoricamente”.

A jornalista Ana Peixoto Fernandes diz que esta obra é, apenas, “uma abordagem a uma empresa com uma grande história”, mas há muito ainda por contar, sobretudo ao nível das questões políticas e de Justiça que ainda decorrem. “Nessas vertentes sim, há muito por dizer, mas seriam necessários muitos livros”.

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