GDR Esporões: Epopeia rumo à Pró-Nacional

Desporto

25 Junho 2021

Joana Russo Belo Joana Russo Belo

GDR Esporões é um dos destaques do futebol distrital da AF Braga. Em dois anos, festejou duas subidas consecutivas, sem derrotas, e chegou ao escalão máximo da Pró-Nacional. Feito histórico, para um clube com a casa às costas.

É uma verdadeira epopeia, narrativa heróica escrita em duas épocas históricas coroadas pela subida ao escalão máximo do futebol distrital da Associação de Futebol de Braga. O Grupo Desportivo e Recreativo de Esporões festejou o título de campeão distrital da Divisão de Honra, Série B, e a subida à Pró-Nacional, depois de, na temporada transacta, ter celebrado a subida da I Divisão Distrital.

Feito que ganha ainda maior relevo tendo em conta que o clube não tem instalações, nem campo próprio, e joga em casa emprestada na freguesia vizinha de Trandeiras, em Braga. Em ano atípico pela pandemia, a conquista foi o tema de conversa do programa Fórum Desporto, da Rádio Antena Minha, com Tiago Barbosa, director desportivo do clube, reactivado pela actual direcção em 2008.

“Felizmente, conseguimos a tão almejada subida à Pró-Nacional. Na época 2018/19, tivemos uma descida de divisão, voltámos para a I Divisão e quando estávamos a preparar esta época, há um ano, o nosso objectivo sempre foi garantir a manutenção no mais curto espaço de tempo, foi isso que transmitimos aos jogadores. A questão é que as vitórias começaram a surgir e todos começámos a acreditar. Não estávamos obcecados pelo título, mas as coisas surgiram naturalmente pela qualidade da equipa, qualidade da equipa técnica e pelo trabalho que vínhamos a fazer. Foi o acreditar no nosso trabalho”, explicou o director, realçando a crença de todo o grupo.

“Chamo-lhe a isto uma epopeia. São duas temporadas sem qualquer tipo de registo negativo, sem nenhuma derrota. Na época transacta, o campeonato terminou e nós estávamos com 19 pontos de vantagem para o segundo classificado, quando ainda faltaria jogar praticamente a segunda volta, dá conta do registo positivo. E este ano voltámos a não sofrer qualquer derrota, são mais de 30 jogos sem perder, é um registo completamente positivo. O segredo é o trabalho, dedicação e esforço em prol de um clube que tanto gostámos. Principalmente os atletas, são os grandes obreiros do que foi feito”, elogiou.

Tiago Barbosa não esconde o “orgulho” de toda a direcção pela subida, “porque as condições em que nós sobrevivemos são, completamente, desfavoráveis”: “só uma direcção coesa e um grupo que acredita em nós nos faz ter sensações positivas com esta conquista do título. A base deste grupo desportivo é a direcção, somos coesos e acreditamos no progresso do nosso clube. Em 2008, quando reactivámos o clube começámos do zero, ou menos um como costumo dizer, não tínhamos nada, fomos à luta e conseguimos. Reerguer o clube era, claramente, o nosso objectivo. Sentimos que Esporões necessitava de um clube desportivo, a freguesia sempre foi muito aficcionada pelo desporto rei e houve um grupo de pessoas que decidiu avançar para a reactivação e fomos bem sucedidos.

Quando entrámos nem bolas tínhamos, não tínhamos campo, ainda hoje não temos, não tínhamos nada e fomos à luta, trabalhámos juntamente com os nossos amigos patrocinadores e conseguir esta obra não é fácil. Sabemos que muitos tentam e não conseguem. Deixou-nos orgulhosos e à freguesia também”.

“Não podemos hipotecar o futuro do clube”

Numa época atípica, motivada pela Covid-19, a equipa do GDR Esporões superou todas as adversidades e paragens competitivas. Tiago Barbosa agradece “aos patrocinadores e amigos”, que “perceberam as nossas preocupações e dificuldades e ajudaram-nos a cumprir todas as nossas obrigações”. “Não haver público tem consequências muito mais dramáticas, para mim deixa de ser futebol, deixa de haver receitas, foi muito complicado”, recordou o director, lamentando a posição da AF Braga.

“A partir do momento em que a AF Braga assumiu que os campeonatos iam decorrer, fomos obrigados a competir, porque a consequência era dramática, voltar novamente à estaca zero, coisa que não queríamos. Não queríamos que o campeonato se iniciasse, mas tivemos que retomar, porque descer de divisão seria catastrófico. Mas, se estivéssemos na I Divisão, claramente que não iríamos participar. Na Divisão de Honra, não queríamos deitar por terra todo o trabalho do último ano. Entendo a posição da AF Braga, queriam que o futebol fosse uma realidade, mas as condições eram nulas, dezenas de jogos adiados, competições adulteradas por não haver a segunda volta, deixa de existir verdade desportiva, mas foram os dados lançados e foram os que jogámos. Fizemos muitas contas à vida, a máquina de calcular andava sempre no bolso, mas funcionou bem”, referiu.

Na próxima época, na Pró-Nacional, a exigência obrigará a um desafio ainda maior: “temos que ser sérios e honrar os nossos compromissos. Não podemos hipotecar o futuro do clube. O clube quando fechou actividade há 17 anos, foi por motivos de gestão financeira e não queremos voltar a cometer os mesmos erros do passado. Se quisermos ser melhores, temos de competir com os melhores. É este o nosso lema. Temos de jogar e competir com os melhores. Naturalmente, o orçamento não pode fugir do que temos assumido nas últimos épocas, o futuro do clube não pode ser hipotecado face a situações que possam acontecer. A meio da época acontece uma nova vaga Covid, pára tudo e como é que aguentamos o clube? Temos que andar sempre com a nossa máquina de calcular. O futebol não é tudo e não podemos hipotecar o futuro do clube”, alertou o dirigente, assumindo o objectivo de “desfrutar ao máximo do escalão maior”. “Queremos garantir a manutenção no mais curto espaço de tempo”.

“Campo permitirá desenvolver formação e futebol feminino”

O Campo 10 de Outubro, em Esporões - a casa do clube - está em ruína, num processo envolto em sucessivos atrasos e promessas de requalificação que parece, agora, finalmente, estar no bom caminho.

“É um processo que dura há oito anos, o presidente da câmara comprometeu-se em realizar as obras do campo, acredito que seja um processo moroso, mas nunca pensei ser tanto. Desde há um ano e meio tem tido desenvolvimentos bastante positivos, com o presidente da junta de freguesia, apenas somos parte interessada, o campo é da junta, que é o dono do processo. As garantias que nos foram dadas é que, no próximo ano, obrigatoriamente, tem de arrancar a obra e tornar disponível o campo quanto antes para o Esporões”, revelou Tiago Barbosa, lembrando que não ter casa própria nem sede social “limita a actuação e o crescimento contínuo do clube”. “Termos campo próprio permitirá desenvolver projectos de futuro, como futebol de formação e uma equipa feminina.
A aposta é esta”, frisou.

“Acredito que as obras arranquem no início de 2022. Foi uma garantia que nos foi transmitida pelo presidente da junta de freguesia. É o grande projecto. O meu grande objectivo é cortar a fita no 10 de Outubro e depois posso ir embora e dar lugar a outros. Continua a ser o nosso grande objectivo, garantir o campo de futebol em Esporões. Não estamos realizados, falta o campo, sinto-me realizado a nível desportivo, mas no que me fizeram acreditar há 13 anos não estou realizado, porque não foram cumpridos os pressupostos naturais”, rematou.

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