Braga, segunda-feira

Há perigos e oportunidades nas classificações das cidades

Regional

11 Maio 2021

José Paulo Silva

Braga melhor destino europeu. Investigador Pedro Guimarães diz que o retorno económico é garantido mas não tão importante como a qualidade de vida que a competição deverá promover.

A recente eleição de Braga como ‘Melhor Destino Europeu’ em 2021, alvo de discussão com “uma componente política muito acentuada”, deve ser aproveitada para um debate mais construtivo, envolvendo os responsáveis políticos e a comunidade, para apurar “de que forma a população local vai beneficiar com esta distinção”. A proposta é do bracarense Pedro Guimarães, investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa e co-coordenador do projecto PHOENIX – Regeneração Urbana Liderada pelo Comércio e as Novas Formas de Governança através do qual se encontra a estudar novos modelos de governança para a revitalização das áreas centrais das cidades portuguesas.


“A boa classificação, de determinada cidade, em índices nacionais e internacionais, não é garante de forma determinística de uma efectiva melhor qualidade de vida da sua população, para além do orgulho individual dos cidadãos e do reforço de algum sentido de comunidade, o que é manifestamente insuficiente”, considera o geógrafo que estuda temas como a governança de centros das cidades, gentrificação comercial, resiliência e políticas de planeamento comercial.
 

 Segundo este especialista, a participação de Braga na distinção para melhor destino europeu em 202 surge num enquadramento de competição entre cidades. “Pode-se criticar a actual orientação neoliberal na governação das cidades, no geral. No entanto, também não seria prudente pedir aos responsáveis públicos que se imiscuíssem de participar em processos de classificação e hierarquização de cidades que, apesar de reflectir aquela orientação, podem ser benéficos para a respectiva cidade”, alega.


Para o investigador, a polémica criada pela candidatura de Braga “parece ter sido exponenciada pelo facto de estar em causa o turismo”, sector com “um peso crescente da economia urbana”, mas a discussão “não tem sido centrada nos aspectos que me parecem ser mais prementes”.
 

 Defende Pedro Guimarães que, “independentemente da verba despendida, de entre os valores em discussão, o retorno económico ficou salvaguardado com o resultado obtido”, ou seja, “a visibilidade e notoriedade que a cidade alcançou irá ter retorno no número de turistas que vai visitar a cidade, gerando receitas”.


Contudo, o investigador do Centro de Estudos Geográficos alerta para “os impactos negativos do excesso de turismo”, apontando os exemplos de Amesterdão, Veneza e Barcelona, onde se discutem “formas e mecanismos de controlar e mesmo restringir o fluxo de turistas que tem afectado sectores como a habitação, comércio e, ainda, o acesso equitativo ao espaço público”, ou mesmo Lisboa e Porto, onde “já se reconhece que o excessivo volume de turistas e de infraestruturas turísticas, que resultam em alguns casos da reconversão de espaços já existentes, tem sido pernicioso para parte da população local”.


Por isso, Pedro Guimarães entende que Braga deve “aprender com semelhante evolução em outras cidades, até porque a actual pandemia veio demonstrar os perigos de uma economia excessivamente orientada para os visitantes”


Insistindo que a discussão à volta da candidatura de Braga a ‘Melhor Destino Europeu’ não tem sido centrada nos aspectos mais prementes, Pedro Guimarães defende que “a participação de Braga neste e em outros rankings hierárquicos de cidades também deve ser contextualizada e analisadasobre uma perspectiva mais abrangente”.

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