Braga, segunda-feira

Música afro-portuguesa em livro para falar de celebração, conflito e esperança

Diversos

11 Dezembro 2020

Lusa

A história da música afro-portuguesa é o ponto de partida do livro Não dá para ficar parado, de Vítor Belanciano, hoje apresentado em Lisboa, editado no âmbito do projeto Memoirs, que investiga as heranças coloniais na Europa.

Com formação académica em Antropologia e Sociologia, Vítor Belanciano escreve sobre Cultura, nomeadamente música, no jornal Público há mais de 20 anos, e muito do trabalho enquanto jornalista acabou por servir de base a “Não dá para ficar parado - Música afro-portuguesa. Celebração, conflito e esperança”.
 

“Se há área que acho que nas últimas duas décadas foi efervescendo e nos colocou uma série de questões, enquanto sociedade, interessantes - de tensões, conflitualidades, mas também de potencialidades e encontro de culturas - foi precisamente o campo da música”, afirmou, em declarações à Lusa, a propósito da edição do livro.
 

Quando, ao longo dos últimos anos, fez as entrevistas a figuras como General D, Waldemar Bastos, Aline Frazão, Nástio Mosquito e Dino D’Santiago e bandas como os Tubarões ou Buraka Som Sistema, Vítor Belanciano não tinha ideia “de lhes dar um sentido comum”.
 

Para escrever o livro foi “determinante” o desafio que lhe foi feito por António Pinto Ribeiro, um dos investigadores do projeto Memoirs – Filhos de Império e Pós-Memórias Europeias, depois de um seminário que preparou para investigadores europeus ligados àquele projeto financiado pelo Conselho Europeu de Investigação.
 

Vítor Belanciano acredita que foi no seminário que “as pessoas ligadas ao Memoirs perceberam que o projeto, sem ter essa dimensão da música, em Portugal, ficava um bocado coxo”.
 

Para o jornalista, a mais-valia deste livro, “passe o narcisismo, é conectar coisas que até agora não estavam necessariamente conectadas”.
 

“Há um trabalho documental e de documentação feito ao longo dos anos que é a base do livro. Claro que a partir do momento em que assumi que ia escrevê-lo, era a partir do olhar atual, mas há no livro conversas que tive há dez/quinze anos. Portanto, há toda essa história, que de alguma forma estava por contar, de uma forma que todas as pontas se conectassem”, disse.
 

O livro arranca com “A música como lugar de experimentação social”, que faz uma espécie de introdução ao tema.
 

Ao longo de 12 capítulos, Vítor Belanciano aborda a história da música ‘afro-portuguesa’, termo que admite não ser consensual.
 

“’Música afro-portuguesa’ é apenas uma tentativa, até meio ingénua se calhar, de aproximar de uma realidade que já é outra coisa. O projeto Memoirs tenta dar conta que quando falamos de uma Europa afro-europeia falamos de uma coisa que já não existe, existe uma Europa, ponto final. Por mim tinha usado apenas música portuguesa, mas isto também não é pacífico porque alguns destes atores não se consideram portugueses, e, por outro lado, não consideram que a música que façam seja portuguesa”, explicou.
 

O termo música lusófona estava fora de hipótese, “porque é meio paternalista e é apenas uma dimensão de todas estas sonoridades”.
 

A história começa a ser contada no pós-25 de Abril de 1974, com a primeira geração a chegar a Portugal, que inclui Cesária Évora, Bana ou Bonga, “que tiveram dificuldades de afirmação no contexto português e não foi por acaso, teve que ver com um certo silenciamento que nessa altura exista em relação a essas figuras”.
 

“Portugal estava muito mais direcionado para a Europa, essa ideia de país europeu. Enquanto essa ideia do país Atlântico, precisamente pelo contexto do colonialismo, tinha sido um bocadinho dissipada ou quase esquecida. Ou seja, Portugal não queria relacionar-se com os países africanos de língua portuguesa nesses anos que se seguiram ao 25 de Abril”, afirmou.
 

Vítor Belanciano acredita que a sociedade portuguesa da altura “não estava preparada para os acolher”, mas não só: “Também porque havia, e aqui falo de uma forma mais lata para além da música, um autossilenciamento, no sentido de não se dar muito nas vistas”.
 

Esse “autossilenciamento” termina no início da década de 1990 com “a primeira geração do hip-hop, do rap”, que é a segunda geração afrodescendente, no livro “personificada pelo General D”.
 

“Aí cria-se uma rutura, porque é uma geração que finalmente adquire voz. Lembro-me de ver o General D na televisão a falar de racismo, de segregação, de conquista de direitos. Era uma novidade haver um negro na televisão a falar destas questões. Essa geração acaba por dar visibilidade a uma série de reivindicações que eram novidade na sociedade portuguesa dessa altura”, recordou.
 

No final da década de 1990, General D “desapareceu praticamente do panorama português, andou emigrado 15 anos”. Vítor Belanciano reencontrou-o em Londres, em 2014. Nessa altura, General D reconhecia haver “mais visibilidade e mais atores afrodescendentes no espaço público português, seja da música ou de outras áreas, mas continua uma relação por resolver, há feridas em aberto, tensões, conflitualidades”.
 

“E eu concordo com ele. Acho que isso se mantém, se bem que há também portas que se abriram. Tal como o subtítulo do livro pretende traduzir, há conflitualidades e tensões latentes que ainda não foram de maneira nenhuma resolvidas, e quotidianamente temos acesso a elas, através de questões de racismo, e este ano, mais uma vez, tivemos imensas. Mas também há uma nova geração que tem uma perspetiva nova sobre essas questões sociopolíticas e que tem um novo discurso e um novo posicionamento, e isso também está inscrito na música”, defendeu.
 

Para Vítor Belanciano “foram dados passos no sentido de haver maior integração de todas essas figuras e de elas terem uma voz, conquistarem uma voz e conquistarem representatividade”.
 

“Se bem que na música, bem como no futebol, a representatividade negra é qualquer coisa que é esperada. A expectativa é que haja muitos negros a fazer música ou a jogar futebol”, lembrou, defendendo que “a sociedade portuguesa só terá uma relação muito mais saudável com todas estas questões quando houver uma representatividade muito mais lata, e que não passa só pela música ou pelo desporto”.
 

O título do livro, “Não dá para ficar parado”, tem “duas dimensões”: “Por um lado, é essa ideia que esta música que abordo é uma música de ritmo, de fisicalidade, e, por outro lado, tem que ver com uma certa urgência de se abordarem estas questões e de as pessoas tomarem posição perante elas”.
 

“Por um lado sim, há conflitualidade e há tensões que temos que nomear e tentar resolver, por outro lado há passos que foram dados e são irreversíveis. Eu sou um otimista, acho que a música tem um contributo também nisto, no sentido de ser um integrador das diferenças e de permitir que as pessoas dialoguem através da música, através do corpo, porque não?”, questionou.
 

“Não dá para ficar parado” é apresentado hoje às 18:00 no Lux, em Lisboa. Além de Vítor Belanciano, a apresentação/conversa conta com a presença de António Pinto Ribeiro, DJ Marfox e Dino D’Santiago, “que depois vai assumir a função de DJ” juntamente com o jornalista Davide Pinheiro.

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