NATO: Fim do “apaziguamento” com Rússia despoletado pela “questão do Kosovo”

Internacional

07 Julho 2024

Lusa

O ataque da NATO à Sérvia em 1999 assinalou, na perspetiva de Moscovo, o fim do apaziguamento iniciado com a queda do Muro de Berlim e o início da rutura das relações entre a Rússia e a Aliança militar ocidental.

Após a unificação alemã iniciada em outubro de 1990, o colapso dos regimes do leste europeu aliados de Moscovo, e a dissolução do Pacto de Varsóvia, em meados de 1991, surgiu um desafio decisivo: a possibilidade de existir uma nova forma de organizar a Europa que não implicasse o alargamento da NATO em direção à fronteira russa como a única escolha possível.
 

Quando a unificação da Alemanha se tornou iminente, Mikhail Gorbatchov, ainda na Presidência da URSS – que será extinta em dezembro de 1991 – propôs a dissolução da NATO e do Pacto de Varsóvia em nome de uma nova ordem de segurança transeuropeia inclusiva, do Atlântico aos Urais.
 

O homólogo dos EUA, George H. W. Bush (1989-1993) rejeitou a ideia, tal como a perspetiva de uma Alemanha unificada mas neutra. Em posição de fraqueza, o último líder da URSS não conseguiu contrariar as intenções dos EUA em manter a NATO na Europa e englobar na organização militar o conjunto da Alemanha unificada.
 

A posição de Bush “pai” sugeria que, mesmo com o final da Guerra Fria, os EUA pretendiam uma NATO alargada e com tropas e armas na Alemanha de leste, corredor em direção ao centro-leste europeu.
 

Nesta perspetiva, a oposição russa ao alagamento da NATO é muito anterior à presidência do atual Presidente russo Vladimir Putin, e prossegue na década de 1990 quando, sob a presidência de Boris Ieltsin (1991-1999), a Federação da Rússia era aclamada como uma democracia e um parceiro.
 

Documentos desclassificados demonstram que Ieltsin manifestou por diversas vezes junto da administração de Bill Clinton a sua oposição à expansão da NATO, posição que foi transmitida a Washington por importantes diplomatas.
 

Em 10 de maio de 1995, durante um encontro em Moscovo, Ieltsin abordou a questão de forma direta com o então Presidente Bill Clinton (1993-2001), ao sugerir a suspensão do alargamento da NATO até 2000 para que surgissem “novas ideias". Uma sugestão que não foi atendida.
 

A “questão do Kosovo” constituirá um novo argumento. Na perspetiva da liderança do Kremlin, em particular após a subida de Putin ao poder em 2000, as alterações de fronteiras nos Balcãs eram um sinal do que poderia acontecer no seu país, e quando a NATO prosseguia imparável a sua expansão em direção a leste, ocupando o seu anterior espaço de influência, após a reunificação alemã: Polónia, República Checa e Hungria aderem em março de 1999; e Estónia, Letónia, Lituânia, Eslováquia, Eslovénia, Roménia e Bulgária em março de 2004, o quinto alargamento da Aliança desde a sua fundação em 1949.
 

Em 1999, o conflito na ex-Jugoslávia centrava-se no Kosovo, após a consumação das independências das antigas repúblicas, a Eslovénia e Croácia com significativo apoio diplomático e militar ocidental, e o acordo de paz de Dayton para a Bósnia-Herzegovina que decretou duas entidades separadas.
 

Será neste período “intermédio”, e devido à sua fraqueza e dependência económica face ao ocidente, que a Rússia de Ielstin firmará o Ato Fundador NATO-Rússia (maio de 1997), que não passará de uma declaração de intenções, à semelhança da “perspetiva” de adesão da Rússia na Aliança militar ocidental.
 

Com o agravamento da crise na província do sul da Sérvia, após o início da rebelião armada dos separatistas albaneses do UÇK e a resposta musculada do Exército sérvio, o então primeiro-ministro russo, Yevgeny Primakov – natural de Kiev – viaja para os Estados Unidos com o objetivo de propor um plano de paz para esta região dos Balcãs.
 

No decurso da deslocação, a NATO decide iniciar em 24 de março de 1999 a sua campanha de bombardeamentos contra a então República Federal da Jugoslávia (Sérvia e Montenegro) dirigida por Slobodan Milosevic, que se prolongam até 10 de junho.
 

Primakov regressa de imediato a Moscovo, ainda com Boris Ieltsin na presidência, e anuncia que a cooperação terminou. Na perspetiva russa, o ataque - a um país amigo, aliado, ortodoxo - poderia ser o prenúncio de um ataque à própria Rússia.
 

De imediato, é definida uma doutrina sobre os locais que não deveriam ser “cobiçados”, e onde qualquer avanço do ocidente seria encarado como um sinal da guerra: o enclave de Kaliningrado, a Ucrânia e Geórgia.
 

Estas “zonas vermelhas” nunca foram alteradas e serão definidas ainda antes da chegada de Vladimir Putin ao poder em 2000.
 

Desde então, e mesmo que de início o novo líder do Kremlin fosse considerado um interlocutor com aceitação generalizada, a fratura apenas se aprofundará, mesmo que o Conselho NATO-Rússia, surgisse em maio de 2002.
 

A autoproclamada independência do Kosovo em 2008, afinal o conflito que tinha justificado a “intervenção humanitária” da NATO à revelia da ONU, foi entendida por Moscovo, oito anos após o início do consulado de Putin, como um novo e sério sinal de alarme. E irá alterar de forma decisiva a abordagem geopolítica e a nova estratégia nacional de segurança do Kremlin.
 

Após o consulado de Ieltsin, com uma Rússia à beira do colapso económico e Forças Armadas enfraquecidas, a chegada de Putin ao poder permitirá que a Rússia recupere a potência económica e militar necessária para nova posição de força.
 

A “arrogância” ocidental, segundo Moscovo, intensificava-se e justificava esta viragem. Os EUA, argumentaram, faltavam à “promessa” feita a Moscovo, nunca firmada em documento oficial, de renunciar à expansão da NATO em direção a leste em troca da unificação alemã e a incorporação da extinta RDA na organização militar aliada.
 

A ocidente, a opinião dominante defendia, pelo contrário, que os EUA redobrassem os esforços e aumentassem a sua presença militar na Europa, incluindo no flanco oriental da NATO. Mesmo que a secção IV do Ato fundador NATO-Rússia (1997) estipulasse que não haveria "estacionamento permanente suplementar de importantes forças de combate" nessa região.
 

Em 2007, em plena Conferência de Munique sobre Política de Segurança, Vladimir Putin lança um aviso, e que é repetido na sequência da cimeira de NATO de Bucareste em 2008. A Rússia denotava agitação.
 

O discurso de Putin na capital da Baviera foi considerado um importante aviso diplomático aos Estados Unidos, e seus aliados, de que a paciência da Rússia face à expansão da NATO atingia os limites.
 

As suas palavras são ignoradas. Logo no ano seguinte, a Cimeira de Bucareste da NATO em 2008 é palco de uma intensa discussão interna. No cerne do debate, uma referência explícita se Ucrânia e Geórgia poderiam aderir à NATO. A declaração final foi dúbia, sendo declarado que iriam aderir, mas não no imediato.
 

Na perspetiva russa, foi uma declaração de guerra. E desde então a Rússia preparou-se para a afirmação militar, económica e estratégica, deixando de acreditar nas “boas intenções” da liderança da NATO.
 

Num despacho de fevereiro de 2008, redigido pouco antes da controversa cimeira de Bucareste e dirigido ao secretário de Estado, secretário da Defesa e chefes militares, o então embaixador dos Estados Unidos na Rússia, William Burns, atual chefe da CIA, considerava que o alargamento da NATO, em particular à Ucrânia, permanecia uma “questão sensível e nevrálgica para a Rússia" que a entendia como uma "potencial ameaça militar".
 

Na ocasião, Burns também manifestou receios de que esta questão "dividisse a Ucrânia em dois, implicando violências ou mesmo, segundo alguns, uma guerra civil, e que obrigaria a Rússia a determinar se deveria intervir", definindo inclusive a adesão de Kiev à NATO como “a mais vermelha de todas as linhas vermelhas" para a elite russa, e "um desafio direto aos interesses russos".
 

O catalisador foi a já citada cimeira da NATO de Bucareste entre 02 e 04 de abril de 2008 (perspetiva de adesão da Ucrânia e Geórgia), com o primeiro sinal expresso na guerra entre 07 e 12 de agosto entre a Rússia e a Geórgia, quatro meses após a conclusão da cimeira.
 

A Ucrânia foi o passo seguinte. Após a “revolução de Maidan” de 2014, que Moscovo definiu como um “golpe de Estado” patrocinado pelos ocidentais, e por recear que este desfecho implicasse um exclusivo alinhamento com a NATO e UE, a Rússia anexou a Crimeia e apoiou as duas regiões separatistas no Donbass, Donetsk e Lugansk, em rebelião contra Kiev.
 

Depois, vieram os acordos de Minsk I e II, nunca respeitados, o Formato de Normandia envolvendo Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, que não resultou, a invasão militar e guerra de 2022 em larga escala, e a decisão de anexação à Rússia dos ‘oblasts’ de Donetsk, Lugansk, Zaporijia e Kherson, para além da já consumada integração da península da Crimeia, ou a retirada mútua de diversos tratados de controlo de armamento.
 

Este desfecho também poderá servir para questionar se os Estados Unidos, e a NATO, não falharam a ocasião, a partir de 1989, de fomentar uma ordem europeia que incluísse a Rússia, em detrimento de uma ordem que a manteve de fora, aumentando o seu sentimento de alienação e exclusão.
 

Mas para Washington, e não apenas para os círculos neoconservadores, Putin – que num discurso em 25 de abril de 2005 perante a Duma (Parlamento) considerou a dissolução da URSS como a “maior catástrofe geopolítica do século XX” – permanece o único responsável pela deterioração das relações russo-norte-americanas, mais uma justificação para o expansionismo da Aliança militar ocidental.

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