Braga, sábado

Nossa Varanda, Varanda de Todos: falta mecenas para editar livro solidário

Regional

08 Junho 2020

Redação

Na Quinta da Reguenga, as noites do estado de emergência viveram-se com especial encanto, fruto da dedicação de Fátima Soeiro e Virgilio Miranda. Projecto está a ser eternizado num livro solidário, mas falta um mecenas para garantir a publicação.

‘Nossa Varanda, Varanda de Todos’ é o nome do livro solidário que vai ajudar a Delegação de Braga da Liga Portuguesa Contra o Cancro, uma publicação que eterniza o projecto com o mesmo nome desenvolvido pelo casal Fátima Soeiro e Virgilio Miranda, durante o período de quarentena.

Tudo começou com aplausos à varanda para prestar homenagem aos profissionais de saúde que estavam na linha da frente da luta contra a Covid-19. Durante três noites, o casal, como a maioria dos portugueses, aplaudiu, mas rapidamente percebeu que era preciso “fazer algo diferente” para manter envolvida a vizinhança da Quinta da Reguenga, na União de Freguesias de Nogueiró e Tenões.

“Percebemos logo que a música, por ser uma linguagem universal, seria a melhor forma de envolver as pessoas e criar um ritual”, recorda Fátima Soeiro, que é presidente da Delegação de Braga da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Assim aconteceu. Durante 45 dias, pontualmente às 22 horas, Fátima Soeiro e Virgilio Miranda estavam na varanda, onde, durante cerca de 15 minutos brindavam os vizinhos com uma música emitida através da aparelhagem sonora.

Não se limitaram a “entreter”. O projecto foi muito mais profundo do que isso. Diariamente, o casal dedicava algumas horas do dia a seleccionar o tema musical. “Cada escolha teve sempre uma justificação, que partilhámos com os vizinhos, assim como partilhámos a história do tema”, explicam. “A música é a forma superior de comunicação”, refere Virgilio Miranda, com Fátima Soeiro a reconhecer que sem o marido, profundo conhecedor de música, não teria conseguido manter este emblemático projecto que envolveu a vizinhança e criou laços de amizade que se vão manter para sempre.

“Nós morámos cá há 18 anos e só conhecíamos os vizinhos de passagem. Trocávamos cumprimentos de circunstância. Este projecto contribuiu para nos conhecermos melhor e criarmos um verdadeiro espírito de vizinhança”, refere Fátima Soeiro. Começaram pela ópera e passaram sobretudo música dos anos 60 e 70 e também alguns temas dos anos 80. “Começámos pelas áreas de ópera, as mais belas, mas também as mais dramáticas, onde íamos buscar metáforas para o que estávamos a viver naquele momento”, explica Virgilio.

O projecto ultrapassou as fronteiras da Quinta da Regaleira quando Fátima Soeiro o transpôs também para o Facebook. Rapidamente conquistou seguidores em Inglaterra, no Brasil, na Suécia e outros pontos do mundo, que diariamente acompanhavam e comentavam a ‘música do dia’.

“Somámos mais de 3500 gostos, 1800 comentários e 230 partilhas”, conta Fátima Soeiro.

O projecto manteve-se durante 45 noites consecutivas e conquistou os aplausos não só da Quinta da Reguenga, mas também de prédios vizinhos. Ninguém queria perder o encontro marcado para as dez da noite.

O projecto foi tão marcante que Fátima Soeiro sentiu que o tinha de eternizar. Esse sentimento, aliado ao facto de a Delegação de Braga da Liga Contra o Cancro ter visto todas as iniciativas de angariação de fundos canceladas devido à pandemia, levou Fátima Soeiro a tomar a iniciativa de escrever um livro solidário, cujas vendas reverterão integralmente para a Liga.

A Delegação de Braga da Li- ga presta apoio psicológico, mas também social e jurídico, a doentes oncológicos. Mesmo durante o período de confinamento as consultas mantiveram--se. “Foram dadas 141 consultas, por telefone ou por video- conferência”, conta a também presidente da Delegação.

O atendimento presencial foi retomado a 21 de Maio, seguindo todas as regras impostas pela DGS.

A delegação, no entanto, depara-se com um grave problema de viabilidade financeira, precisamente devido ao cancelamento das iniciativas de angariação de fundos “que envolviam todas aglomeração de pessoas”.

A Liga vive do apoio da sociedade civil e precisa urgentemente de verbas para continuar a prestar o ser serviço.

“Este livro será uma forma de ajudar a angariar verbas que tão precisamos para a Liga”, explica Fátima Soeiro, apelando ao apoio de algum mecenas para suportar os custos da gráfica.

O livro está praticamente escrito. O fotógrafo José Rocha cede 45 fotografias para ilustrar cada dos dias de ‘Nossa Varanda, Varanda de Todos’. A designer Cristina Mouta também já se ofereceu para fazer a capa. Só falta mesmo um mecenas para suportar a execução do livro.

O projecto tem alguma urgência, uma vez que a Liga precisa de verbas para continuar a prestar o apoio aos doentes oncológicos do distrito. A Câmara de Braga paga a renda do espaço, porém os custos com recursos humanos e materiais são suportados pela delegação.

Amigos e vizinhos elogiam projecto

Vizinhos e amigos do Facebook não poupam nos elogios ao projecto desenvolvido por Fátima Soeiro e Virgilio Miranda durante o período do estado de emergência. Lamentam que tenha terminado, mas percebem que não podia durar para sempre. É com bons olhos que vêm o projecto eternizar-se num livro, sobretudo numa publicação solidária a favor de uma causa tão nobre como a luta contra o cancro.

“Foi uma iniciativa muito interessante e muito importante para nós, vizinhos do casal. Foi importante sobretudo porque percebemos que nos tínhamos uns aos outros”, recorda Helena Areias, que às 22 horas fazia questão de ir à sua varanda para assistir “ao momento”, acompanhada pelo marido, Fernando, e pela filha Mariana.

“Esta situação acabou por aproximar os vizinhos, que passaram a conhecer-se melhor. A música, de facto, tem esse dom de universalidade e de promoção da união”, nota Fernando Areias.

Já Helena realça que o facto de este ter sido como que um ritual “foi muito bom”, porque estes “momentos são importantes para a identidade do ser humano e para a sua consciência colectiva”.
O casal elogia ainda a ideia de o projecto originar, agora, um livro solidário.

Também os vizinhos António Vieira e Teresa Lacerda, foram espectadores diários do projecto de Fátima Soeiro e Virgilio Miranda. Da sua varanda, do outro lado da rua, também sentiram que o projecto estreitou os laços de amizade entre a vizinhança.

“Foi muito interessante, pois a certa altura já tentávamos adivinhar qual seria a música do dia. E depois de eles passarem a música e de explicarem a escolha, acabávamos, cá em casa, por continuar a falar sobre o assunto”, conta Teresa Lacerda, que apreciou tanto a iniciativa que convidou Fátima Soeiro para falar sobre a mesma aos seus alunos da catequese. “São alunos do 7.º ano e eles gostaram muito da conversa, apesar de ter sido por videoconferência porque é assim que tenho dado catequese devido à pandemia”, conta.

Sobre o facto de a iniciativa passar para livro, Teresa Lacerda considera que “já antes disso, este acabou por ser também um projecto solidário em si, porque nos proporcionou vivências importantes num momento em que todos precisávamos de conforto. Sentimos todos que não estávamos sozinhos, apesar do isolamento social”, confessa, recordando que “em 45 dias, ninguém desmobilizou” e que se percebia “que toda a gente ansiava por aquele momento”.

Já Etelvina Sá acompanhou a iniciativa através do Facebook. “Foi muito interessante. Em Braga houve várias iniciativas de animar as tardes, os fins de tarde e as noites com música nas varandas para desdramatizar um pouco a situação. Porém, no caso da Fátima Soeiro e do Virgilio Miranda, o que eles fizeram foi muito mais do que isso porque eles tiveram um cuidado enorme na escolha das músicas, fizeram sempre uma selecção muito criteriosa e explicavam essa escolha”, conta a jurista, realçando que as músicas foram sempre adequadas ao dia ou momento que se vivia.

“Conjugando o que fizeram ao nível da varanda e do facebook, eles prestaram, um serviço à sociedade, acrescenta Etelvina Sá, para quem a ideia do livro foi “excelente” uma vez que a Liga precisa de apoio uma vez que se está privada de realizar as tradicionais iniciativas de angariação de fundos.

Também Cândida Esteves acompanhou a iniciativa através do facebook. “Foi muito enriquecedor, não só porque contribuiu para criar laços entre as pessoas que estavam isoladas em casa, como também a nível cultural porque escolheram com esmero às músicas e cada uma delas com uma mensagem sempre muito apropriada ao momento, à forma como as pessoas estavam a vivenciar a situação”.

“Foi extraordinário”, resume esta amiga virtual de Fátima Soeiro, para quem a ideia de agora lançar um livro faz todo o sentido. “É um testemunho que fica de um momento da história pessoal, mas também regional e até nacional. Fica um testemunho para as gerações vindouras”, remata, recordando que o projecto também foi uma homenagem aos que, na saúde, estavam na linha da frente a combater a Covid-19.

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