Braga, quarta-feira

O vírus apagou a essência do caminho de Santiago

Regional

31 Agosto 2020

Redação

O distanciamento social e o medo do novo coronavírus deitou por terra o que os peregrinos mais procuravam no caminho: a partilha. Actualmente são poucos os albergues abertos, facto que afasta cada vez mais os peregrinos de Santiago de Compostela.

Seriam milhares os peregrinos que nesta altura do ano estariam a percorrer os Caminhos de Santiago. A Covid-19 - ou o medo dela - tem-nos afastado da essência que é experienciada ao longo do percurso. “A partilha, que dá vida ao caminho, acabou por ser perder com esta pandemia”, adianta ao CM António Devesa, vice-presidente da Associação Espaço Jacobeu, com sede em Braga.


Um dos principais problemas que têm afastado os peregrinos dos Caminhos de Santiago prende-se com os albergues que ou estão encerrados ou com uma capacidade reduzida. “Apesar de haver vontade dos peregrinos em fazerem-se ao Caminho, o facto é que acabam por depararem-se com situações críticas na questão do apoio”, diz o dirigente da Associação Espaço Jacobeu.


“Por norma os albergues são extremamente pequenos. Tornavam-se grandes antes da pandemia, mas agora são pequenos por causa das regras do distanciamento”, continua o dirigente, indicando que na Via da Prata, que fez recentemente, um dos caminhos mais longos, estão apenas três albergues abertos. Em muitos dos percursos, os que estão ainda abertos são albergues privados.


Sem lugar nos pontos de apoio para pernoitar a preços mais acessíveis, o peregrino que pretenda actualmente fazer o Caminho de Santiago tem de recorrer ao alojamento privado ou aos hotéis. “Em época alta os preços rondam os 50, 60 euros. É complicado. Mesmo nos hotéis há actualmente um certo receio em alojar um peregrino. São pessoas que não se sabe de onde vêm e isso provoca algum receio nas unidades hoteleiras. Mas não quer dizer que não haja quem se faça ao Caminho, porque há, mas muito menos”.
 

Apesar das contingências, António Devesa diz que os pedidos de credenciais continuam a chegar, embora em muito menor número do que o ano anterior. “Mesmo no período de confinamento houve sempre pedidos à associação. Provavelmente não acreditaram que esta situação se iria prolongar. Agora não posso afirmar que todos foram ou vão para o caminho”, explica o dirigente, indicado desde Março o número de pedidos para credencial desceu para cerca de 1/3 face ao mesmo período do ano passado.


A Credencial do Peregrino é um documento essencial para se poder pernoitar na maioria dos albergues (um pequeno número de albergues de gestão privada não exigem a credencial). É também essencial para a obtenção da Compostela, o ‘certificado’ que comprova que cumpriu a peregrinação até à Catedral de Santiago de Compostela.
 

Desde 2014, a Credencial serve também para se poder obter um certificado da distância percorrida onde consta o ponto de partida da peregrinação.
 

O número de peregrinos nos próximos meses estará dependente, segundo o responsável, do evoluir da pandemia. “Se houver uma evolução muito acelerada de casos, o caminho regressa à estaca 0”. Os perigos e preocupações com que o peregrino se confronta actualmente faz com que se afastem da essência do Caminho. “O que antigamente era um abraço, hoje é um problema”, conclui.
 

”Não aconselho os peregrinos a irem para o Caminho neste momento”
 

São muitos os problemas que se levantam a um peregrino que decida percorrer os Caminhos de Santiago no actual contexto de pandemia. O contacto quase inevitável com outros peregrinos é, desde logo, a primeira questão. Há ainda o problema dos albergues, do apoio logístico. A imprevisibilidade dos tempos junta-se ao rol de preocupações. “De um momento para o outro algumas zonas poderão entrar em confinamento e, neste caso, o peregrino terá de desviar-se deste percurso para ‘apanhar’ o caminho mais à frente’. Ninguém imaginava que um dia teria de entrar em Espanha de máscara e percorrer o caminho todo com ela. É horrível!”, diz o vice-presidente da Associação Espaço Jacobeu, adiantando que muitos peregrinos quando se confrontam com estes obstáculos “a vontade vai-se baixo e desiste”. Por isso, não só como dirigente, mas sobretudo enquanto peregrino já com uma larga experiência, não aconselha ninguém a ir para o caminho neste momento. “Se alguém o fizer que tome todas as medidas de precaução”“, diz.

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