Braga, sábado

Pandemia precipitou o regresso de muitos brasileiros ao seu país de origem

Regional

20 Fevereiro 2021

Paula Maia

A desvalorização do real, no caso dos cidadãos aposentados, e a perda de emprego, no caso dos mais jovens, são os factores que estão na base da decisão. Mas a comunidade brasileira em Braga parece ter sido a que menos sofreu com a crise pandémica.

O despoletar da pandemia levou muitos imigrantes brasileiros que residiam em Braga a regressar ao seu país. A desvalorização do real (a sexta moeda que mais desvalorizou em 2020) parece ter sido um dos motivos que levou muitos reformados e empreendedores que escolheram Braga para investir ou simplesmente desfrutar da cidade a fazer o percurso inverso.


Já entre os jovens trabalhadores, o encerramento da restauração, assim como de outros negócios e serviços, terá ‘empurrado’ muitos cidadãos brasileiros para o seu país de origem.


Alexandra Gomide, presidente da UAI - Associação de União, Apoio e Integração aos Imigrantes da Comunidade Luso-Brasileira em Portugal, com sede em Braga, revela que os cidadãos brasileiros que ficaram em situação de grande vulnerabilidade por causa da pandemia, acabaram por regressar antes do segundo confinamento, apesar de não haver dados concretos quantos aos números.
 

 Frisando que a comunidade brasileira residente em Braga tem características distintas das que estão espalhadas pelo resto do país, nomeadamente dos grandes centros como Porto e Lisboa, pela sua condição financeira mais robusta, Alexandra Gomide diz esse factor fez com que o impacto da pandemia não fosse tão devastador. “O brasileiro que veio para Braga vem em busca de mais qualidade de vida. Normalmente o cidadão brasileiro que precisa de trabalho vai mais para Lisboa ou Porto. Por isso é que as comunidades desses centros sentem muito mais a situação do que a comunidade que reside em Braga”, argumenta. Mesmo, assim, a crise pandémica acabou por desfazer o sonho de muitos que julgavam por garantida a tão ambicionada qualidade de vida no Minho.
 

 “No caso dos reformados, o câmbio tornou inviável a sua permanência com a desvalorização do real. Quem vivia de rendimentos no Brasil tinha cá um poder de compra que diminui bastante. Os empreendedores que viram os seus estabelecimentos fechados no primeiro confinamento e que não conseguiram reagir na retoma tiveram que fechar de vez e voltar para o Brasil”, explica a responsável.


O desemprego, com o fecho de muitos estabelecimentos, afectou sobretudo aos mais jovens que vieram à procura de melhores condições de vida. Também estes sofreram o maior impacto logo no primeiro confinamento.

 
“Foram muito abalados na primeira vaga e não conseguiram sustentar-se aqui. Também tiveram de regressar”, continua Alexandra Gomide, adiantando ainda que os que mais sofreram este impacto foram os cidadãos que chegaram a Braga mesmo antes do despoletar da pandemia, em Janeiro e Fevereiro de 2020. “Não deu tempo para se organizarem. Essas pessoas não conseguiram avançar na documentação e, consequentemente, na procura de trabalho. Aliás, são esses, que mais procuram a UAI”, assegura a responsável.


E se a situação do Brasil não é mais favorável para os que regressam, Alexandra Gomide diz que a família “pesou” muito na decisão, constituindo um suporte par ajudar no recomeço de uma nova vida.
 

UAI apoia actualmente mais de uma centena de famílias
 

O apoio da UAI à comunidade brasileira tem sido fundamental em tempos de pandemia, auxiliando famílias que perderam rendimentos.
 

 “Há três tipos de situações: pessoas que estão a precisar de um complemento porque um dos membros do agregado está desempregado, os que vivem de rendimentos e que estão a precisar de ajuda e ainda aqueles que não têm qualquer tipo de rendimento”, confirma ao CM Alexandra Gomide, avançando que a associação apoia neste momento mais de uma centena de famílias que, quinzenalmente, levam para casa algum algum apoio, traduzido sobretudo em géneros alimentares.


“Quando existem necessidades mais específicas, fazemos campanhas pontuais, como por exemplo quando há necessidade de obter roupa para recém-nascidos”, conta a responsável da associação. E a ajuda extravasa as próprias fronteiras do concelho.


“Há cidadãos brasileiros de outras zonas do país a procurar a UAI porque não há nenhuma instituição semelhante que lhes dê o suporte que precisam”, avança ainda Alexandra.
 

 Estes donativos surgem, segundo a dirigente, da generosidade de cidadãos particulares da própria comunidade brasileira e de instituições de toda a região minhota.
 

Situação de muitos imigrantes africanos é “desesperante”
 

Se o primeiro confinamento veio agudizar as fragilidades sócio-económicas dos imigrantes africanos a residir em Braga, este segundo lock down trouxe ainda mais dificuldades, sobretudo entre os imigrantes de expressão francófona.


São centenas os imigrantes africanos a residir no concelho, mas nem todos constam dos números oficiais devido à sua situação. Uns possuem Estatuto de Refugiados, outros ainda estão em processo de legalização, muitos estão ainda fora do sistema. Por isso, segundo Saidatina Dias, Mediadora Municipal e Intercultural para a comunidade africana e membro da Associação dos Imigrantes Senegaleses em Portugal, os números são difíceis de contabilizar.
 

Uma esmagadora maioria vive da economia informal, cujas actividades estão actualmente suspensas, facto que agudiza a sua frágil situação.
 

 Os problemas que se colocam a esta comunidade com forte expressão no concelho, são um pouco diferentes dos que se apresentavam em 2020. “No primeiro confinamento as pessoas foram apanhadas desprevenidas. O nosso trabalho foi, sobretudo, distribuir bens de primeira necessidade. Hoje, essas pessoas estão a ser encaminhadas para os vários projectos sociais do concelho”, relata Saidatina Dias, explicando que neste segundo confinamento é o acesso aos apoios do Estado, nomeadamente ao Apoio Extraordinário da Segurança Social, o principal problema, dado ser um processo muito burocrático. “Muitas pessoas têm recorrido a nós para poder ter esse apoio. São muitas as barreiras. Primeira tem a linguagem digital, que muitas dessas pessoas não têm”, diz a mediadora intercultural, referindo-se especificamente à comunidade senegalesa que tão bem conhece. “Essas pessoas têm de depositar muita confiança em nós para dar mos início ao processo”, explica, adiantando ainda que alguns destes cidadãos nem sequer são elegíveis para estes apoios, o que os deixa numa situação “de desespero”.
 

Só no primeiro dia em que foram abertas as inscrições para este apoio, Saidatina recebeu mais de 15 pedidos de ajuda. “Alguns já tinham aberto a linha na primeira fase, mas outros não”, diz, frisando que este é o único apoio que estes imigrantes africanos poderão obter para sobreviver.
 

 Entre a comunidade imigrante, a preocupação direcciona-se também para os estudantes africanos a estudar em Braga. “Já fomos à residência de Santa Tecla para apoiar os estudantes assinalados pela Associação dos Imigrantes Senegaleses, levando bens de primeira necessidade”, confessa a mediadora, garantindo que as necessidades de alguns alunos são grandes. “Alimentam-se mal. Não estão a morrer à fome, mas estão a alimentar-se mal”, prossegue Saidatina que procura manter um contacto próximo também com estes cidadãos afim de aferir as suas necessidades.
 

“Damos aquilo que as empresas nos dão, assim como alguns donativos de anónimos”, continua.


A situação entre a comunidade de imigrantes africanos é, por isso, segundo a responsável, “desesperante”.


“São pessoas que já viviam em condições sociais precárias. Com o segundo confinamento a situação agravou-se. Sabemos que quem paga mais a factura são os mais necessitados. As pessoas que recorrem a mim estão em dia em relação à segurança social, mas e aquelas que não têm sua situação em dia? São muitas mais e estão desesperadas”, remata a responsável, confirmando que há muitas despesas básicas essenciais e “fixas”, como por exemplo, a renda da casa, água, luz e gás que têm de ser liquidadas. Para não falar de outras situações: “aquela ajuda que mandavam para as suas famílias quase desapareceu porque estão aqui numa luta pela sobrevivência”, relata a mediadora de origem senegalesa

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